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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Filhos da puta sem razão e sem sentido

O Manuel Garcia era um gajo porreiro. Era mesmo aquele tipo de gajo com quem se pode falar quando estamos stressados no trabalho. Tranquilo, e quase sempre do lado da razão, por muito irritado que um gajo estivesse, quando se falava com ele as coisas pareciam sempre mais simples. Ocupava um daqueles cargos intermédios, daqueles cargos que um gajo se esfola à brava para conseguir o lugar, porque teoricamente se recebe melhor e se tem menos chatices, mas que no fim é apenas um cargo em que se trabalha mais e nunca se é levado a serio. Eu até, quando as coisas não eram comigo, ficava admirado como é que o Manel aturava certas coisas, sempre, sempre com aquela calma! Às vezes estavam mesmo a lixar o gajo, ele sabia, quase de certeza, que o estavam a lixar, mas ficava sempre tranquilo. Uma vez ou outra ainda tentava demonstrar o seu ponto de vista, tentava explicar que se calhar, de outra forma, as coisas ficariam melhor resolvidas. Mas quem é que ouvia o Manel? No fundo, o Manel era o gajo que estava ali para manter as coisas calmas, apesar de ele pensar que tinha outras funções, toda a gente no escritório, chefes e empregados normais, sabiam que o Manel só se mantinha ali porque era passivo com as chefias e era um gajo porreiro para os colegas. Quem é que diria que o Manel era capaz de fazer uma coisa daquelas!
Claro que no princípio ninguém desconfiava de ninguém. As coisas ocorriam de uma forma espaçada no tempo, e apesar do mau estar que causava sempre que acontecia, ninguém parecia ligar muito a isso. Certo dia, um daqueles chefes picuinhas, que se rala com tudo o que não é necessário ninguém se ralar, (Eng. Mendes é essa a sua graça. Nunca soube o primeiro nome do gajo! Acho até que ele deve ter mudado o primeiro nome dele para Eng. Só a questão que ele faz em frisar esse aspecto...) algures em meados de Maio, o Eng. Mendes dirigiu-se à casa de banho e sai passados alguns segundos, indo directamente para o seu gabinete e chama a sua secretária, a D. Alzira.
A D. Alzira, já trabalhava lá há quase há 23 anos, não suportava fazer recados nem coisas do género, tinha tirado o curso de secretariado e achava que o seu lugar era junto da administração. Passava a vida a dizer que não tinha culpa nenhuma de ser gorda e que era muito mais competente do que todas as secretárias juntas da administração.
Quando a D. Alzira chegou ao gabinete do Eng. Mendes, ele disse com aquele ar que ele sempre fazia quando tinha descoberto mais uma falha nos seus subordinados, que era necessário colocar um letreiro na casa de banho a dizer que as pessoas devem ter o cuidado de deixar a casa de banho limpa sempre que acabam de a utilizar. Disse-lhe também para ela entretanto chamar a empregada de piquete porque a casa de banho estava imunda e tinha que ser limpa.
O Eng. Mendes não era pessoa para deixar assim um assunto destes sem qualquer tipo de resolução ou medida. Apesar de ter dito à D. Alzira para colocar o letreiro na casa de banho, ia agora passar a deixar a porta do gabinete aberta e vigiar a casa de banho durante o dia. A D. Alzira, claro, não disse nada ao Eng. Mendes, mas assim que saiu, começou logo a bramar que aquilo não era o trabalho dela, que ela não tinha nada que fazer letreiros nem chamar as empregadas de limpeza. Teve mais um ataque de nervos, que deixa sempre toda a gente nervosa no escritório, e saiu a correr para a casa de banho. Saiu da casa de banho aos berros e ainda mais histérica do que tinha entrado.
Com este alvoroço todo, o graxas, correu logo para o gabinete do Eng. Mendes para perguntar o que se passava. O Eng. Mendes que já estava a ficar bastante mal disposto com aquela coisa toda, principalmente porque agora estava quase todo o piso a perguntar o que é que se passava e ninguém estava a trabalhar, disse logo ao Helder muito bruscamente para ele chamar a empregada de limpeza a fim da casa de banho ser limpa e que não se passava mais nada, que voltassem todos ao seu trabalho.
Na hora de almoço desse dia, lembro-me de ver o Manel a tentar acalmar a D. Alzira, que ainda soluçava. Foi aí que me apercebi do que se tinha passado. Alguém tinha deixado uma bosta em cimo do tampo da sanita. Eu já tinha, esporadicamente, ido à casa de banho e encontrado a mesma imprópria para consumo. Já tinha até comentado com o Manel e com outros gajos lá do escritório, se eles sabiam quem é que de vez em quando deixava a casa de banho assim, mas nunca tinha sucedido nada do género e agora estava toda a gente parva com aquilo.
Os dias foram passando, estávamos agora em Novembro, e nunca mais nada se tinha passado. Até o Eng. Mendes estava já convencido que a sua ideia do letreiro tinha mostrado quem de facto mandava ali. Tinha inclusivamente a porta do gabinete constantemente fechada novamente, quando a D. Alzira, numa terça-feira, vai à casa de banho a meio da manhã e se depara com a casa de banho no seguinte estado:
Um cheiro a merda insuportável e na parede por detrás da sanita uma frase escrita a bosta: "Se eu aturo as vossas merdas, aturem agora a minha".
Tinha sido escrita com o piaçava, que estava agora dentro do lavatório depois de ter cumprido pela primeira vez uma função para a qual não estava destinado.
Histerismo completo, todos os empregados normais correram para a casa de banho, inclusive o Eng. Mendes, e toda a gente saiu dali com a mesma pressa que tinha chegado.
Ninguém mais trabalhou nessa manhã! Fomos todos para a cantina enquanto a coitada da empregada que estava de piquete limpava a casa de banho. O Eng. Mendes reuniu de emergência com os seus superiores e a D. Alzira teve que por um comprimido debaixo da língua e ir para casa o resto do dia.
Da reunião com os seus superiores, soube depois por portas e travessas que ele tentou implementar uma medida que aos anos ele andava a tentar implementar. Mas sem sucesso. Não foi vista com bons olhos a ideia das pessoas irem à casa de banho uma vez por manhã e uma vez por tarde, apenas com 5 minutos de tempo. O Eng. Mendes decidiu a partir desse dia vigiar constantemente a casa de banho.
Passou a apontar num documento, elaborado pela D. Alzira, que se tinha esmerado a serio, as horas, quem entrava e quem saia da casa de banho. Sempre que saia alguém da casa de banho, ou a D. Alzira, ou o Eng. Mendes, que andavam agora em completa sintonia, tratavam muito discretamente de ir logo de seguida ver em que estado tinha ficado a casa de banho. Na terça-feira da semana a seguir, outra vez de manhã, exactamente uma semana depois, novamente a mesma cena. Desta vez, a frase dizia "AH AH AH não me apanham". Lá estava o piaçava no lavatório outra vez, imóvel!
O Eng. Mendes correu para o documento, verificou que ninguém tinha ido à casa de banho naquela manhã, e gritou para todo o piso ouvir que ia apanhar quem andava a fazer aquilo. Aquilo já tinha ultrapassado todos os limites e esse alguém ia ser apanhado e castigado.
Lá foi o Helder a correr novamente para o gabinete do Eng. Mendes. Estiveram algum tempo à conversa e o Helder saiu do gabinete com aquele sorriso parvo, que só ele tem, convencido que tinha subido mais uns pontos devido a uma ideia qualquer que tinha tido. Não faço ideia o que é que o Helder disse ao Eng. Mendes, só sei que naquele dia ninguém falou mais daquilo!
Nesse dia, como de costume, toda a gente saiu às seis da tarde e ficaram apenas no escritório o Eng. Mendes, o Manel, o Helder e eu.
O Eng. Mendes, desde o sucedido, ficava sempre até sair toda a gente. O Helder ou o fuinha, como quiserem, ficava para poder mostrar ao Eng. Mendes que era dedicado ao trabalho. O Manel porque tinha mesmo de trabalhar, se não, não iria ter tempo de terminar o trabalho para entregar no dia a seguir. Eu, só estava lá para ver se conseguia perceber o que é que o Fuinha tinha dito ao Eng. Mendes de manhã. Eram quase oito da noite e ninguém parecia querer ceder, o único que estava verdadeiramente ocupado continuava a ser o Manel. O Helder, fartou-se, foi-se embora. O Eng. Mendes também começava a dar mostras de querer ir embora. Eu já estava convencido que não ia saber o que é que o Helder tinha falado com o Eng. Mendes, fui á casa de banho. Quando sai da casa de banho e me dirigi para a minha secretária, vi que já tinha saído o Eng. Mendes. Só lá estava o Manel ainda a trabalhar. Perguntei-lhe se ele ainda ficava muito tempo. Ele disse-me que não. Disse que ia para casa e que no dia a seguir vinha um bocado mais cedo para acabar o trabalho. Saímos juntos do edifício. Enquanto esperávamos pelo elevador, trocamos umas palavras e nem reparamos que quando o elevador abriu as portas, estava lá o Eng. Mendes. Ele saiu sem nos dizer nada e nós entramos no elevador e descemos.
Lá em baixo despedi-me do Manel. Fingi que procurava alguma coisa nos bolsos das calças, enquanto ele se afastava, e quando ele já não me podia ver, fui a correr novamente para o escritório ver o que é que o Eng. Mendes estava lá em cima a fazer. Quando cheguei lá acima já não vi ninguém! O Eng. Mendes já devia ter ido embora de vez. Fui novamente à casa de banho e vim-me embora, feliz e contente.
No dia a seguir de manhã, o Manel, tal como tinha dito, chegou mais cedo do que todos.
Fez o seu trabalho e nem deu pelo tempo a passar. Eram praticamente nove da manhã, não tardava muito iriam começar a chegar as pessoas. Resolveu ir à casa de banho antes que alguém chegasse. Assim que entrou na casa de banho e fechou a porta, viu logo o piaçava dentro do lavatório. Enquanto os seus olhos se dirigiam para a parede da casa de banho, onde estava uma nova frase, começava a inalar o cheiro nauseabundo que empestava toda a casa de banho. Nos 2 ou 3 segundos que demorou nisto tudo, abre a porta para sair dali de imediato e ainda com a porta, apenas com uma greta aberta, vê que acaba de chegar o Eng. Mendes. Fecha de imediato a porta e põe-se a pensar no que há-de dizer ao Eng. Mendes. Enquanto pensa, lê e relê umas trinta vezes o letreiro na parede. O seu cérebro recorda-lhe que existe um cheiro insuportável na casa de banho e gasta praticamente toda a embalagem de spray ambientador que existe sempre disponivel debaixo do lavatorio. De seguida, sem sequer pensar novamente nas coisas que lhe estavam a suceder, agarra no piaçava, abre a torneira do lavatório ao máximo, lava o piaçava e limpa da forma possível a casa de banho. Por sorte, (dependendo sempre do ponto de vista), tinha ficado um balde e uma esfregona na casa de banho. O Manel consegue limpar tudo em cerca de vinte minutos. Sai da casa de banho e repara que o Eng. Mendes está a anotar a sua saída da casa de banho. Antes que o Eng. Mendes pudesse ir verificar a casa de banho, dirige-se ao Eng. Mendes e sem deixar que ele pudesse dizer alguma coisa, diz-lhe que aquele ia ser o seu ultimo dia na empresa.
O Manel trabalhou o resto do dia, sem dizer uma palavra e saiu às 6 em ponto.
Desde que o Manel foi embora, nunca mais houve nada na casa de banho. O fuinha foi obviamente para o lugar do Manel, o Eng. Mendes e a D. Alzira, apesar do espanto, estão convencidos que era o Manel quem tinha cometido aqueles actos, apesar de não poderem provar nada, chegaram à conclusão que desde a saída dele, nunca mais tinha havido nada. Eu olha, cá vou andando. Como diz a D. Alzira, quem diria que o Manel era capaz de fazer uma coisa daquelas!

1 comentário:

joaninha versus escaravelho disse...

Hmmmm cá para mim o culpado era o Eng. Mendes... :D
Só agora tive tempo para ler este texto. Aliás, só agora dei por ele. E é tão grande... Ando mesmo com a cabeça noutros lugares.
Muito fixe, o texto!