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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Banda Sonora

Já não me recordo da última vez que adormeci noutra posição que não a de estar deitado de lado, com a face direita assente na almofada. Ontem, antes de adormecer, decidi dormir deitado para o outro lado. Assim que me virei, reparei que a cama é na realidade muito mais larga do que eu imagino quando adormeço virado para a porta do armário! Virado para o outro lado, vejo a janela e a parede branca! A luz que entra pelas frinchas das persianas, da janela agora de frente para mim, consegue desenhar por cima do lençol, o rectângulo perfeito de uma outra almofada! Há outra almofada do outro lado da cama! Há quanto tempo estará ali, intacta? Não quis perder tempo a pensar nisso, levantei a cabeça e encostei-a de imediato na outra almofada. Queria ver que forma a sombra tomaria depois! Estava fria, gelada, arrependi-me logo de ter encostado lá a cabeça! O que fará aquela almofada gelada ali? Quem é que a pôs ali? O lençol enrolou-se e começou a prender-me as pernas, estava cada vez mais e mais apertado! O arrepio de frio nas costas, provocado pelo gelo da outra almofada, não me passava, era cada vez mais longo…Esperneei até a roupa da cama ter caído toda no chão e levantei-me de rompante. Acendi a luz do quarto e dirigi-me à cozinha. Deu-me sede, precisava de beber um copo de água. Assim que abri a porta do quarto, vi que a luz do corredor estava acesa! Deixei a luz acesa?! Comecei a rever os meus passos todos, desde que tinha chegado a casa até à hora em que decidi deitar-me. Não me lembro de ter deixado nenhuma luz acesa! A luz do corredor?! Enquanto pensava, apercebi-me que permanecia à porta do quarto. Apaguei a luz e dirigi-me para a cozinha. Não foi preciso sequer entrar para poder ver. Assim que dei os cinco passos, medianamente largos, necessários para chegar à porta da cozinha, constatei que a luz também estava acesa! Fui à sala, ao outro quarto…Corri a casa toda! Todas as divisões, com excepção do quarto, estavam com a luz acesa! Terá faltado a luz?! Que disparate! Mesmo que a luz tenha faltado, alguém teria de ter ido a todos os interruptores! Corri para a sala, queria encontrar a chave do carro e sair. Já não me queria deitar. Onde é que eu deixei a chave? A chave não pode ter desaparecido! Sempre que perco alguma coisa, depois de procurar em todo o lado, apercebo-me que me esqueci de procurar no sítio mais óbvio! Baixei-me para procurar debaixo do sofá. Debaixo do sofá, o chão tinha desaparecido. Havia um buraco negro enorme! Em frente ao sofá, no meio do tapete da sala, estava um biscoito castanho para gatos. Era totalmente castanho, com uma risca ainda mais castanha a meio! Abri a janela e mandei-o fora. Fez um estrondo semelhante a um trovão quando caiu no chão! Contei até seis… Nada de mal aconteceu. Apaguei as luzes todas e tornei a deitar-me. Desta vez com a face direita na almofada...

James - Out to get you

5 comentários:

joaninha versus escaravelho disse...

Cá para mim estás a ficar doidinho... :D

(Já leste "The yellow wallpaper"?)

AP disse...

:) é talvez uma inevitabilidade!

(Nunca li mas quero ler, até porque gosto de pequenos contos e historias.)

Em Bicos de Pés disse...

... e lá fora o gato miou. Está fartinho de te dizer que não gosta daqueles biscoitos e tu insistes. Um dia vais perceber que ele sabe acender interruptores. E é vingativo.

E esta música que eu não ouvia há tanto tempo.

joaninha versus escaravelho disse...

Vou enviar-to por email. Tenho-o em pdf. Está disponível na internet e não é pirata! :)

Anónimo disse...

Sugestivo o processo de partir de um pormenor como simplesmente virar-se para o outro lado e a partir daí acontecer evasão... Evade-se a personagem, evade-se o leitor, que partilha da sua viagem naquele momento... O escritor, está claro, nunca se sabe, é o poeta fingidor:)... Aquele não se saber onde se vai parar e o saber-se que se pode ir parar aos sítios mais variados, conduzidos pelos caminhos e diferentes portas do relato... o verdadeiro sabor a desconhecido das histórias. Criar essa curiosidade é dom de Contadores:). Gostei muito do texto:). AnónimA.