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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Banda Sonora

À porta do edifício, enquanto esfrega o chão, a empregada de limpeza, sempre com aquela bata verde alface e letras amarelas vestida, cantarola alegremente ao mesmo tempo que pessoas passam quase sem se aperceberem que ela ali está. Através do chão húmido e repleto de pegadas, as pessoas absortas que entram no edifício, edificadas pelos seus sapatos de pele e sola maciça, balbuciam qualquer coisa ao segurança sentado na portaria, que num repente, como se tivesse sido estimulado com choques electricos, responde a todos “bom dia” de forma monocórdica e automática. O pi pi que provém do aparelho de ponto acabado de ser picado, mistura-se com o burburinho que se faz sentir perto dos ascensores, impossibilitando saber em concreto se as pessoas estão de facto a comunicar umas com as outras com palavras ou se apenas por onomatopeias. Dentro dos ascensores, durante a curta subida que os mesmos proporcionam, com o intuito de se conseguir chegar aos andares onde supostamente a produção efectuada durante o dia é a que irá proporcionar o consumo responsável pela alienação, o burburinho transforma-se numa mistura de perfumes com águas de colonia matinais, e em silêncio, interrompido de quando em vez pelo roçar inadvertido de uma perna enrolada numa fazenda num qualquer glúteo coberto por um outro tecido igualmente áspero. Os olhares, agora perdidos, ora no tecto, ora nas paredes falsas cobertas por espelhos, ora no chão, focam-se somente quando a porta abre e finalmente enfrentam as paredes brancas que os circundará durante o resto do dia, durante o resto da vida, até ser noite novamente.

Morgue – Mão Morta

5 comentários:

Tindergirl disse...

Que vida parva, esta...

joaninha versus escaravelho disse...

Muito bom o texto para não variar.
Este cenário de dia-a-dia mostra mesmo um conceito de morte viva. E depois colocas uma das minhas bandas preferidas... :)

Anónimo disse...

Mas... depois... quando se olha ( ou imagina... ) para as coisas por dentro e com o sentido do pormenor analítico-poético:)... e se edifica ESCRITA sobre elas...ou MÚSICA... - ainda que seja a descrição de uma morte lenta - então, aí, é que começa a VIDA...Interior e rica. Escreves mesmo à razão de um texto por dia ou vais à gaveta buscar o que está guardado?:)

AP disse...

Mão Morta também é uma das minhas bandas de eleição :)

Por acaso o texto de hoje foi escrito hoje à tarde. Escrevi-o e apeteceu-me publicar.
Escrevo não todos os dias, mas quase todos os dias, embora grande parte dos textos aqui publicados já tenham sido escritos, alguns há anos, outros há meses e outros há dias :)

Anónimo disse...

Há um PULSAR único nos textos acabadinhos de publicar, tenham eles sido escritos há umas horas há uns dias ou há uns anos :). Naqueles de que se fica à espera que saiam do forno:). Frescos, vivos! Pulsando, pois! Tardiamente, é verdade, mas ando a descobrir esta modalidade de leitura:). Os blogs. Certos blogs. Perdoa-me, portanto, o ar desassisadamente extasiado:P da fase da descoberta:). Ah,e, já agora, identifico-me melhor... AnónimA

Não quero cá confusões!