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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Uma casa ao pé da padaria

Chefe de uma família constituida por mulher duas filhas e um filho, ainda na altura que os escritórios das grandes empresas eram compostos por pequenas salas cheias de fumo e pessoas de bigode, o Pai do Carlitos, chegado a casa depois de um extenuante dia de trabalho, e após se ter refastelado na sua poltrona e de ter colocado as pernas em cima da mesa da sala, fazendo com que o napperon branco-crochet que a sua sogra tinha feito para o enxoval da filha ficasse sujo com os restos de uma bosta de cão que estava à entrada do prédio, decidido a começar a revelar ao seu petiz os segredos que já havia descoberto sobre a vida, virou-se para ele e disse-lhe: Filho, tu já tens idade para começares a saber estas coisas, por isso ouve com atenção aquilo que o teu Pai te vai dizer agora. Um homem, sob circunstancia alguma, deve, ou pode, ser amigo de uma mulher. Um homem quando fala com uma mulher, a mulher tem única e exclusivamente um intuito. O de fornicar com o homem. Por isso meu filho, goza da vida, age sempre como um homem quando assim tiver de ser, e abre muito bem os olhos quando fores escolher a melhor para casar. O Carlitos, ainda inocente como um espermatozóide a viajar pelas Trompas de Falópio, perante tal informação, só lhe ocorreu perguntar porquê. A resposta pronta do Pai foi uma das maiores galhetas, com a mão esquerda, que o Carlitos levou! Tendo, inclusivamente, a unha grande do mindinho do progenitor rasgado parte do seu sobrolho. Outra das coisas importantes que a vida tinha dito ao nobre homem, é que um filho nunca questiona o seu Pai, pelo menos enquanto for menor do que ele. O porquê, não interessa, continuou o homem a dizer, ignorando os gritos da mulher vindos da cozinha, um homem não deve nunca ser amigo da mulher porque eu te estou a dizer que é assim que deve ser. Eu sou o teu Pai, eu é que sei como a vida é e o que é melhor para ti. De seguida, acendeu um cigarro sem filtro, berrou a perguntar pelo jantar, ordenou ao Carlitos para ir ter com a Mãe para ela lhe lavar a cara e por mercurocromo, e voltou a refastelar-se na sua poltrona, enquanto pensava no dia que o seu Pai lhe tinha transmitido a mesma informação. Esboçou um sorriso, sem saber muito bem porquê, enquanto divergia a sua atenção para o jornal que a D. Adelaide se tinha esquecido de manhã lá em casa quando foi perguntar à Mãe do Carlitos se ela lhe podia emprestar a cinta que faz parecer que se emagreceu.

1 comentário:

joaninha versus escaravelho disse...

Vou ver se ainda me consigo inscrever este ano no Mestrado em Estudos Feministas. :)