• FIM
  • R.I.P

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Drive down the street, can't find the keys to my own fucking home

O Cândido anda sempre vestido com um fato azul de riscas cinzentas. Tem umas sobrancelhas espessas, que lhe conferem uma expressão deveras esquisita, e um sorriso largo que desenha constantemente enquanto anda pelas ruas fazendo com que as suas orelhas estejam sempre em posição de alerta enquanto anda e olha, primeiro para o lado esquerdo, depois para o lado direito. A sua maior particularidade, para além da enorme barba beije que enverga, é o chapéu de coco preto, que usa como instrumento de trabalho. Tirando a quarta-feira, cada vez que uma Senhora passa por ele, especialmente se usar luvas brancas, levanta de imediato o chapéu, ao mesmo tempo que simula uma pequena vénia, fixando sempre o olhar no dedo mindinho da mão esquerda da transeunte. De seguida, e à medida que o seu cérebro se esvai em pensamentos obscuros, deixa-se transportar rotineiramente por uma densa nuvem branca, que praticamente viu nascer, e deixa-se ir, de olhos sempre fechados. Sem que mais ninguém dê conta, desce, invariavelmente, antes de se cruzar com a avenida da calçada de basalto, cujo leito desagua perpendicularmente ao antigo riacho de pedra-pomes que passava debaixo da ponte feita de limas, aquela que foi engendrada por um engenheiro surrealista, e com um passo cadente, sem emanar qualquer tipo de som, entra decidido no número 131. Do lado de fora de quem passa, através de enormes vidros triangulares duma montra que outrora chegou a ser um palanque olímpico, apenas os detentores de olhos verdes conseguem vislumbrar os velhos de barba preta, vestidos e calçados de branco, a empurrar bolas do tamanho de cadeiras, impecavelmente cromadas com ferrugem dourada, ao longo da íngreme subida do carrossel gigante que, desrespeitando todas as portas, ocupa a casa toda. No fim da caminhada, cada velho entrega a sua bola ao corcunda que os espera no topo da casa, e atira-se de seguida, alegremente, às amarguras da vida. O corcunda, sempre com um sorriso largo desenhado, e com um número ilimitado de bolas aos seus pés, aspira novamente o ar da rua, todos os dias, com excepção dos domingos, às seis e vinte e três da tarde em ponto.

2 comentários:

joaninha versus escaravelho disse...

Trabalhas numa psiquiatria ou és um doente deles? :D
Sem ofensa, claro...
Adorei o teu texto!

AP disse...

:) Embora não trabalhe numa psiquiatria e não pense que seja um doente deles, no fundo acaba por se verificar um pouco das duas situações na mesma!