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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Jogos físicos e psicológicos

No dia antes de terminar o prazo reparei que ela, sub-repticiamente, mencionou duas vezes, com um intervalo de cinco minutos entre a primeira e a segunda, que ela é que ia ganhar! Apesar de ter ficado surpreendido com esta demonstração de fraqueza da parte dela, já que ela sabia perfeitamente que não podia estar a dizer aquilo, fingi ignorar o que ela disse e mudei muito rapidamente de assunto convencido que ela me estava a provocar porque na realidade ela estava quase a ceder e aquela era a forma que ela tinha encontrado para ver se me fazia perder!
Estava assente já há uns dias que não nos poderíamos provocar mutuamente com este tipo de insinuações e finalmente, com este acto desesperado, ela demonstrava estar a começar a fraquejar! Consegui ver perfeitamente o fumo a sair pelas narinas e orelhas dela quando a ignorei, mas ela de repente sorriu, como se algo se tivesse acendido na cabeça dela, e não voltou a dar parte fraca! Depois disso não disse nem mais uma palavra sobre o assunto e mantive-me impávido e sereno à espera que o tempo passasse. Nessa noite adormeci com a frase, já foste, a sorrir para mim.
Na realidade ela nunca tinha ficado completamente convencida que no dia em que a conheci, e lhe disse que ela era a gargalhada que se destacava no meio da esplanada, que eu lhe estava a querer dizer que ela se ri estridentemente! Ao contrário disso, ela pensou que eu a estava tentar engatar e respondeu de imediato que também sabia fazer rimas dizendo-me que eu seria o centro da atenção no meio da multidão! Nessa altura, tal reacção à minha provocação intrigou-me e comecei a falar com ela num tom propositadamente e notoriamente desinteressado com o intuito de ela não perceber que a resposta me tinha despertado o interesse nela. Estivemos horas à conversa, depois saímos durante dias, e de repente estávamos juntos a viver um com outro! Desde esse dia que ela ficou convencida que eu é que fui atrás dela e nunca a consegui convencer que foi ela com a sua resposta que me cativou!
Foi então que, enquanto estávamos a meio de uma discussão sobre qual a melhor forma de levar uma pessoa à loucura sem se ficar louco, ela me disse, completamente convicta do que estava a afirmar, que eu sem ela não seria mais capaz de viver e que isso me levaria sem dúvida nenhuma à loucura! Claro que nem passado um minuto sobre a afirmação dela fizemos a aposta. Ficou apostado que durante uma semana inteira perderia a aposta aquele que revelasse desejo ou demonstrasse que dependia ou sentia a falta do outro! Durante uma semana nem um beijo trocamos, e no primeiro dia mal dormimos com medo de, a dormir, poder tocar sem querer um no outro! Ambos sabemos que se tocássemos um no outro depois já não haveria hipóteses de voltar atrás e como estaríamos ambos estremunhados seria muito difícil saber quem é que tinha dado o toque inicial. Dessa forma, ao segundo dia estabelecemos que iríamos dormir de pijama até que o período da aposta terminasse. Como ela sabia muito bem que pele dela me causava logo arrepios só de pensar nela, no segundo dia começou a mostrar-me as pernas a dizer que se tinha arranhado numa porta, depois mostrou-me os braços com um sinal que ela nunca tinha visto, os pés com um anel novinho em folha que ela tinha comprado, etc! Achei que ela estava a fazer jogo sujo e então a meio do dia estabelecemos que não nos poderíamos provocar mutuamente com este tipo de coisa e muito menos com provocações orais. No resto da semana, o tempo passou lento. Chegados ao momento em que a aposta terminou, ela olhou para mim a sorrir alegremente, e como estava bonita a sorrir naquele dia, e disse-me que tinha ganho sem dúvida nenhuma! De acordo com ela, como ninguém tinha cedido, a única forma de avaliar quem poderia ter ganho era o facto de eu ter revelado depender mais dela ao não ter dito nada das duas vezes em que ela infringiu as regras! Naquele momento, depois do entusiasmo com que ela tinha acabado de dizer aquilo tudo, tudo ficou claro para mim! Do que ela gostava realmente, era da ideia de pensar que eu não podia viver sem ela, tal como eu gostava da ideia de pensar que ela não podia viver sem mim. Acabamos ali, naquele momento, e nunca mais, até hoje, nos vimos outra vez.

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