• FIM
  • R.I.P

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Just breathe

Nunca consegui compreender, ou aprender, porque é que eu insisto em não ouvir a voz dentro da minha cabeça! Desta vez, se a voz me disse para por um sorriso e fazer unicamente uma cara simpática, é porque a voz sabia, de certeza, alguma coisa que eu ainda não sabia! Mas por que raio é que eu tenho de ter este impulso automático que me faz abrir a boca? Ainda para mais logo para gozar com as coisas que eu acho ridículas! Porque é que eu não penso logo que ridículo é eu gozar com as coisas que acho ridículas e não ponho o sorriso parvo na cara que a voz me está sempre a mandar pôr! Há meses que olhava para ela e esperava pacientemente uma oportunidade de conseguir dizer algo que a pudesse eventualmente impressionar. Há meses que todos os dias dispenso tempo a matutar naquilo que vou dizer caso me surja a oportunidade de dizer uma laracha. Tenho sempre esta sensação que não existe melhor forma para conhecer uma mulher do que uma laracha no sitio e na altura exacta! Todos os dias me preparo, fisica e psicologicamente, para as mais diversas situações que me podem acontecer. E tem compensado, pois as ideias que vou tendo parecem-me sempre melhores do que as que tive no dia anterior! O meu cérebro consegue conceber dia após dia frases cada vez mais divertidas e inteligentes para dizer nas situações mais díspares!
Hoje, estava eu a preparar-me para entrar no elevador, quando reparei que ela estava atrás de mim à espera também. Assim que o elevador aterrou, obviamente, fiz questão de demonstrar toda a minha cortesia dando-lhe primazia para entrar. Tenho cá para mim que elas bem podem dizer o que quiserem, mas apreciam sempre um acto de cavalheirismo. Ela, elegantemente bonita, entrou, premiu o botão do 12º andar, suavemente, e recostou-se de imediato no fundo do elevador junto ao espelho. Eu, sempre a olhar para ela, mas a pensar qual a melhor forma de entrar no elevador, se primeiro com o pé esquerdo ou com o direito(Às vezes luto mentalmente contra as superstições. Se por um lado sei que não sou e não quero ser um supersticioso, por outro lado não faz mal a ninguém entrar com o pé direito), que nem me apercebi que logo a seguir a ela entrou um gajo qualquer, que eu nunca tinha visto! Para demonstrar o quão cavalheiro e educado sou, deixei também o gajo entrar, mantendo um sorriso parvo na cara enquanto dizia “Faça favor de entrar.”.
Entrei, premi o botão para o meu andar, e encostei-me, estrategicamente, de forma a fazer um angulo de cerca de 40º em relação ao olhar dela. Assim, não só podia controlar o gajo, que mesmo à garganeiro se encostou a ela, acho até que lhe tocava ao de leve na saia com uma perna, como podia, ao mesmo tempo, olhar em frente, sem dar a entender o meu pensamento a ninguém. Além disso, o meu perfil esquerdo é sem dúvida nenhuma o meu melhor lado. Assim que o elevador iniciou marcha, ela, surpreendentemente, disse “Está imenso frio hoje", algo que me provoca sempre um arrepio na espinha e fez com que nem tivesse olhado para ela quando ouvi tal coisa! Também porque, confesso, não esperava que ela tomasse a iniciativa de falar destemidamente num elevador somente com mais dois gajos lá dentro. No instante a seguir, porém, ela acabou por se redimir respondendo ela mesmo ao comentário que tinha feito dizendo "Prefiro de longe a chuva do que o frio". Sempre sem olhar para ela, pensei, pronto, tudo bem, uma coisa simples, rápida, que deixa logo algum à vontade para se poder ir o resto da viagem sem aquele silêncio desconfortável que se faz usualmente sentir nas viagens de elevador entre três estranhos. O problema é que o gajo, ainda por cima quando olhei bem para ele reparei que não só ia vestido com um fato beije e uma gravata amarelo-torrado, como tinha a testa alagada em suor, retorquiu logo, e com um sorriso da cor da gravata dele "Eu cá prefiro o Sol!".
Olha-me este! Queres ver...Bem...Estava eu feito parvo a ameaçar o gajo mentalmente, quando me apercebi que tinha de ser lesto em dizer alguma coisa antes de chegar ao andar em que tinha de sair. Assim, quando dei por mim estava a minha boca a dizer "Isso vê-se logo, mais ninguém veste um fato dourado com este tempo!..." E, pela primeira vez, testei com pessoas de carne e osso presentes o sorriso sexy que treino todos os dias antes de me deitar. Silêncio, respiração ofegante, embaraço, olhares para o tecto do elevador. Entretanto, com isto tudo, e enquanto eu contava mentalmente os grãos de pó visíveis a olho nu na grelha do tecto do elevador, nem dei conta que o andar onde devia ter saído já tinha passado! Como éramos só três e eu tinha sido o ultimo a entrar, eles perceberam perfeitamente que tinha ficado ali a fazer sei lá eu o quê, quanto mais eles. Também não dei parte fraca. Com uma cara decidida, fingi que estava tudo sobre controlo e que afinal ia sair num dos andares que eles iam sair também, já que por sorte eles iam sair em andares diferentes. Para não dar mais mau aspecto, pensei que seria melhor sair no andar em que ele saísse, e continuei a contar os grãos de pó no tecto enquanto o elevador subia. PIM. O elevador parou e ela preparou-se para sair. De repente, vira-se para trás, e diz “PARABÉNS MÔR! Eu sabia que ias conseguir! Viste como não vale a pena ter receio de andar de elevador!” a seguir dá-lhe um beijo terno na cara e sai, elegantemente, tal como tinha entrado, para prosseguir com o seu dia pleno de felicidade imunda, pensei eu imediatamente. A porta fechou-se, e o elevador prosseguiu comigo e com o totó lá dentro, ambos com cara de tacho, bom ele de panela...Juro que não sei porquê, mas só me ocorreu dizer que tinha visto nas notícias no dia anterior que um elevador tinha caído em Lisboa e que toda a gente tinha morrido não por causa da queda, mas de susto! Levei logo um sopapo tão grande da voz dentro da minha cabeça, que até agora sinto o cérebro dormente.