• FIM
  • R.I.P

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Sesimbra, vai assinalar a entrada em 2010 com uma festa «debaixo de água», que contará com mais de 50 mergulhadores e surfistas.

Ainda dizem que Deus escreve direito por linhas tortas! Quer dizer, há cheias em quase em todo o lado, onde não há fazem festas debaixo de água...

Black holes and revelations

Hoje, após ter vislumbrado, através do reflexo no azulejo do chão, a sombra de um gajo usufruir do urinol da casa de banho do edifício onde trabalho, que depois saiu sem premir o botão que permite que a água corra pelo urinol abaixo nem ter lavado as mãos, e me ter apercebido que esse mesmo gajo me estava a estender a mão, minutos depois, para o cumprimentar, obrigando-me a usar a desculpa esfarrapada que tenho uma entorse na mão que me impede de quase a conseguir mexer, finalmente, depois de andar anos a indagar-me sobre qual o verdadeiro intuito de terem inventado tal coisa, e a um dia do início do ultimo ano da primeira década do Sec XXI do calendário gregoriano, compreendi para o que servem as portas dos W.C. que não vão completamente até ao chão!

Antroponímia #5

Ao mesmo tempo que em Constância se receia a surpreendente alteração do nível das águas, no Corvo mete pena o isolamento a que ficaram sujeitos os autóctones. Já em Monção temem-se as fortes chuvadas que ainda possam vir a ocorrer.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Banda Sonora

Já é praticamente uma tradição, no fim do ano todos os órgãos de comunicação fazem inevitavelmente o balanço do ano. É normalmente nestas alturas, quando leio um jornal, ou revejo alguns dos acontecimentos do ano, que me apercebo do pouco tempo que passou sobre algumas coisas que eu pensava terem sido há que tempos! Tem sido assim invariavelmente desde há uns anos para cá. Quando era pequeno, não tinha a mínima noção do tempo. As férias de verão demoravam uma eternidade, ao ponto de quase se começar a ter algumas saudades da escola. Recordo-me de ir de férias, uma, duas semanas, para qualquer sítio, e depois ter a sensação de tudo estar diferente quando voltava! Era incrível, só tinha saído de casa durante duas semanas e quando voltava havia sempre algo diferente! Pessoas novas que brincavam na rua, alguma coisa diferente na paisagem, que eu quase nunca conseguia perceber o que era, e eu ficava com aquela sensação, que sempre me fascinou, de achar que tinham passado anos desde que eu tinha estado em casa pela ultima vez! Mais uma vez, tal como quando somos pequenos, na idade adulta a noção do espaço temporal continua completamente indefinida. Quando somos pequenos, duas semanas parecem-nos anos, quando somos adultos, dois anos parecem-nos duas semanas e duas semanas parecem-nos dois anos simultaneamente! Nunca mais tive aquela sensação de terem passado anos quando regresso de férias, tenho mais a sensação que ainda no dia anterior tinha ido de férias. No entanto, isto não se trata de nostalgia, nem nada do que se pareça, apesar de tudo não deixa de ser agradável a surpresa que tenho todos os anos, quase como se fosse a primeira vez, quando sei que certos acontecimentos que eu pensava que tinham sido há anos, afinal foram apenas há alguns meses. Não percebi ainda é se esta sensação, inconscientemente, me quer dizer que eu ainda sou novo, ou se me está a dizer que eu estou a gostar de envelhecer! De qualquer das formas, gosto da desordem de pensamentos que esta ideia me provoca, e no fundo, no fundo, todos estes pensamentos, todas estas sensações, apesar do fim que representam, fazem-me sentir vivo e com energia para recomeçar tudo de novo, sempre que assim tem de ser.

Joy Division – Disorder

I've been waiting for a guide to come and take me by the hand.
Kill these sensations, make me feel the pleasures of a normal man.
New sensations barely end since we've been for another day.
I've got the spirit, lose the feeling, take the shock away.

It's getting faster, moving faster now, it's getting out of hand.
On the tenth floor, down the backstairs into no man's land.
Lights are flashing, cars are crashing, getting frequent now.
I've got the spirit, lose the feeling, let it out somehow.

What means to you, what means to me, and we will meet again.
I'm watching you, I watch it all, I take no pity from your friends.
Who is right and who can tell and who gives a damn right now.

Until the spirit, new sensation takes hold, then you know

I've got the spirit, but lose the feeling

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Hero of the day

Já tenho emprego
já sou capaz de poder ter uma vida normal
de comprar borrego, e bacalhau para o dia de Natal.
Já tenho emprego
já sou capaz de comprar casa, carro e cão
sem nenhum medo, de não conseguir pagar a prestação.
Levanto-me cedo
trabalho 12 horas por dia para conseguir ficar
com o meu emprego, e um belo salário que me irá sustentar.
475 Euros brutos
resolvem-me mesmo a vida
E como sou astuto,
vou–me casar, porque não sobra dinheiro para contraceptivos, e eu não quero apanhar sida.
Com muitos filhos
contribuo então para aumentar a sociedade,
E também consigo, uma melhoria significativa da produtividade
São muito mais mãos, sem estudos, de obra barata
não porque eles sejam burros, mas porque o dinheiro não dá para tudo, e o trabalho não mata
Agora sim, já tenho emprego,
Já faço parte das estatísticas positivas
Agora sim, já tenho emprego
Já posso deixar de pensar em vidas alternativas.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Every job they offer you is to keep you out the dock

O pior que pode acontecer a uma pessoa é ficar sem emprego, disse o senhor vice da AEP (Associação Empresarial de Portugal) ao defender uma proposta desta associação, com vista a aumentar a produtividade das empresas, para reduzir o número de feriados em Portugal e aumentar o número de horas que se trabalha. Mas, e ao contrário do que o senhor da AEP disse, o pior que pode acontecer a uma pessoa é ter emprego e receber extremamente mal e com a discrepância gritante que actualmente existe. Isso sim, manieta...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

História do homem que não se surpreende com nada

A história do homem que não se surpreende com nada conta-se sem muita demora, é simples, linear, e não surpreende ninguém.
Era uma vez então o homem que não se surpreende com nada. Absolutamente nada o conseguia surpreender ou causar qualquer outro tipo de reacção para além da habitual serenidade. Desde pequeno que nenhuma das pessoas que falava com ele conseguia obter qualquer tipo de prazer ou gosto em falar com ele.

- É muito mortiço e nunca se ri, nunca faz nada! Eu tenho cá para mim que ele não tem o juízo todo...

(Depoimento de uma pessoa escolhida ao calhas na rua, desde que usasse lenço na cabeça, retirado do livro autobiográfico do excelso e notável mentor do projecto ampliador do turismo rural para a aldeia onde nasceu o homem que não se surpreende com nada.)

Estas e muitas outras opiniões fizeram com que a pouco e pouco todos os habitantes da aldeia, progressivamente, deixassem de falar com o homem que não se surpreende com nada. Desta forma, sempre muito sereno, o homem que não se surpreende com nada cresceu na mais absoluta solidão. Quando atingiu a maioridade, alegria das alegrias, eis que era chegada a hora de partir da aldeia que o viu nascer, eis que era chegada a hora de conhecer a babilónia! Sem qualquer tipo de surpresa, tanto na aldeia, como para ele, partiu rumo ao sul. Nos primeiros anos as coisas não foram fáceis. As pessoas da cidade também estranhavam muito o comportamento arredio do homem que não se surpreende com nada, pelo que começou a sua vida a trabalhar na recolha de bolotas perdidas nos jardins da cidade. Não havia um só esquilo na cidade que gostasse do homem que não se surpreende com nada! Com o passar dos anos, o seu trabalho foi sendo reconhecido e pessoas de todo o lado passeavam-se nos jardins, corriam, sorriam, faziam pic nics, felizes e contentes. Todas elas sabiam que se podiam sentar sem qualquer tipo de problema em qualquer sítio que escolhessem, num qualquer jardim da cidade. Até que um dia, o inesperado aconteceu! Chegava à cidade o filho pródigo, aquele que retornava a casa depois de ter granjeado fama no estrangeiro. Tinha desempenhado funções de administrador de sistemas informáticos no Gabão e vinha com a cabeça num turbilhão de ideias! Queria fazer uma barragem para produzir electricidade! Queria construir o maior estaleiro do mundo e lá construir o maior Katamaran do Universo! Falava sempre de tudo, e com todos, com um entusiasmo ensurdecedor! As pessoas da cidade começaram a perder a admiração pelo filho pródigo e a desilusão começava a instalar-se na cidade. Assim, pouco tempo volvido, o filho pródigo passara a andar sempre de um lado para o outro, pelas ruas da cidade, a gritar aos setes ventos todos os projectos megalómanos que a sua imaginação lhe ditava. Certo dia, enquanto errava pela cidade, parou e ficou a admirar o maior jardim que já tinha visto. Ao mesmo tempo, viu também o homem que não se surpreende com nada a apanhar as bolotas. Chamou-o e sentou-se com ele num banco de jardim a contar todos os seus projectos. Contou-lhe todos e mais algum que se podia ter lembrado sem dar nunca a hipótese ao homem que não se surpreendia com nada de dizer fosse o que fosse. Visivelmente satisfeito por não ter sido enxotado, como todas as outras pessoas da cidade agora faziam com ele, quando finalmente terminou de contar todos os seus projectos perguntou ao homem que não se surpreende com nada:

- Então o que é que tens a dizer? Não ficas excitado e maravilhado com tudo isto?

- Nada disso me surpreende.

Foi o que respondeu o homem que não se surpreendia com nada sem demonstrar qualquer tipo de reacção ou sorriso. Permaneceu absolutamente sereno.
A resposta e a reacção do homem que não se surpreende com nada caiu como uma bomba no cérebro do filho pródigo. De repente, tudo fazia sentido na sua cabeça! A calma e o bom senso apoderaram-se dele. Disse então, agora tranquilo, muito obrigado ao homem que não se surpreende com nada, e seguiu calmo e tranquilo o caminho de casa. Passaram mais de 7 meses e nunca mais ninguém tinha visto o filho pródigo. Até que no dia 6 de Agosto a notícia foi espalhada. O filho pródigo tinha transformado a sua garagem numa serralharia e o negócio de família estava agora assegurado para o futuro. A cidade rejubilou e foi declarado feriado municipal o dia 6 de Agosto de 1993.
A fama do homem que não se surpreende com nada precede-o hoje em dia! Os que sofrem dos nervos, os demasiadamente entusiastas, os que sofrem de insónia, todos os que sofrem de alegria a mais, e até um narcoléptico, vêm de todo o lado para se poderem sentar num banco de jardim a falar com o homem que não se surpreende com nada. O turismo da cidade duplicou e a serralharia do filho pródigo estendeu-se para um negócio de aluguer de bicicletas!
Na aldeia do homem que não se surpreende com nada, já há uma estátua com o busto dele. Todos na aldeia lhe agradecem o bom-nome com que a aldeia ficou.
Mas o homem que não se surpreende com nada nunca mais lá foi. Reza a lenda que foi, até hoje, a única coisa que o fez sorrir.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Just another manic monday

Como gosto de corresponder a reptos, quero então aqui deixar expresso, olhos nos olhos, a todos os leitores deste blog, e respectivos familiares, amigos e inimigos de cada um(a), (independentemente das suas crenças, dos princípios ou credos, ou do dia de aniversário de quem quer que seja) os meus sinceros votos de uma vida repleta de felicidade, amor e muita aprendizagem, bem como, porque o Natal é quando um homem/mulher nasce, desejar muitas noites felizes na data de nascimento de cada um.

Road rash

De todas as mensagens que por esta altura se encontram em todo o lado onde se entra, aquela que particularmente me toca mais, e me enche o coração de espírito natalício, é aquela que diz: “ Desejamos a todos os nossos clientes e seus familiares um feliz natal e um próspero ano novo.”. Nem por um segundo sequer me senti excluído de tal mensagem, quando ontem à tarde fui com uma amiga a um café onde nunca tinha ido antes e li tal mensagem novamente. Embora ela seja apenas minha amiga, e eu não tenha nenhum familiar que frequente aquele café, rejubilo com o facto de saber que no dia em que comprar ali uma pastilha, ou tomar apenas um café, coisa que ontem acabei por não fazer dado que não me apetecia nada naquele momento, tais votos se estendem, automaticamente, a mim e a toda a minha família! Imaginem isto agora multiplicado por todos os estabelecimentos do mundo! Se isto não é o verdadeiro espírito de Natal que eu oiço falar desde que sou catraio, então o Natal já nada significa para mim.

Cup o' tea

Pois é verdade, está aí o Natal outra vez. Nem consigo saber ao certo o que é que eu mais gosto no Natal. Agrada-me bastante o consumismo desenfreado, o acotovelar nas lojas, a enfatização das diferenças sociais das crianças através dos presentes que cada uma recebe, mantendo-os também na ilusão que tudo depende da maneira como se comportam.
Mas acho que para decidir mesmo o que eu mais gosto nesta quadra teria que escolher entre o facto de poder competir com a família e amigos a ver quem é que dá a prenda mais cara, e o facto de ser a época em que faço questão de me preocupar com os menos favorecidos para poder ignorá-los o resto do ano sem peso na consciência.

sábado, 19 de dezembro de 2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Complexos #21

- Então, o que é que foi?

- Nada, estava aqui a pensar só...

- Porra! Tu és mesmo esquisito como o caraças! Quer dizer, há dois minutos atrás estavas aqui a falar na boa, agora estás aí com cara de avô a pensar não sei em quê!

- Estava a reparar ali naquela mesa, estás a ver? Aquela gaja está ali desde que aqui chegámos a falar com aquele gajo, e ambos estão divertidos à brava...

- São novos ainda. Devem ser namorados. Ou então estão prestes a ser, pela maneira como se entreolham e de vez em quando se empurram ou fazem cocegas um ao outro...

- Pois, é nisso que fiquei a pensar depois de ter reparado neles. Achas que, se por acaso eles forem namorados e algum dia deixarem de o ser, que vão continuar a ser amigos como agora aparentam ser?

- Sei lá! O que é que isso me interessa até?

- Em relação aqueles os dois a mim também não me interessa nada, o que me importa é que concluí, agora a olhar para eles, que não sou amigo de nenhuma rapariga com quem namorei ou tive uma relação mais intima! Todas elas, depois de eu ter terminado, ou de elas terem terminado a relação comigo, por um motivo qualquer que desconheço, a pouco e pouco deixaram de falar comigo até ao ponto de deixarmos de ser amigos, ou conhecidos até! Para além de eu ter pena, porque com todas elas, todas, sempre me diverti muito quando andavamos no jogo de sedução, e depois enquanto mantivemos a relação, não consigo entender se isto sucede apenas comigo, estando o problema em mim, ou se de facto quando um homem e uma mulher não têm interesse fisico um no outro, mesmo que apenas uma das pessoas tenha esse interesse, não é mais possivel serem amigos!

- Isso não há-de ser assim tão linear como estás para aí a dizer. Se tu tens uma relação que depois acaba, isso significa que houve algo que correu mal. Se algo correu mal é inevitavel que depois a coisa não seja nunca mais como foi no inicio ou durante a relação. Depois, não te esqueças que se a relação termina porque uma das pessoas se apercebeu que não gosta da outra da mesma forma que a outra gosta dela, isso vai fazer com que inevitavelmente, e provavelmente inconscientemente até, as pessoas se afastem para que não sejam alimentadas falsas esperanças. Claro que isso vai fazer com que as pessoas, a pouco e pouco, se afastem e por fim deixem de saber como correm os dias, as semananas, os meses, enfim, a vida da outra pessoa. Por fim deixam de se conhecer, de ser amigos, passam a ser conhecidos que se cumprimentam quando esporadicamente e casualmente se encontram na rua, ou num supermercado qualquer...

- Por muito que me custe dizer isto, és capaz de ter razão, embora ache que isso até faça sentido, não tem sentido nenhum...

- Para mim o que não faz sentido nenhum é duas pessoas terminarem uma relação dizendo que gostam na mesma da pessoa mas que já não conseguem resolver os problemas entre si! Das duas uma, ou gostam e então não há problema que não se consiga resolver, ou então não gostam, pelo menos como gostaram, e então os problemas tornam-se insolúveis sendo a separação inevitavel.

- Agora estás a ser radical, isso é que não há-de ser bem assim, as pessoas são todas diferentes umas das outras, olha por exemplo aquele gajo dos Joy Division que escreveu a musica Love will tear us apart, o gajo gostava da mulher dele e também da outra, não se conseguia separar nem de uma nem da outra...

- Pois, lá está, não se conseguia separar nem de uma nem da outra, mas tu estavas a falar de quando se separaram, não de quando não se conseguem separar, não é a mesma coisa.

- Bom, é melhor parar com esta conversa, tenho que te dar razão duas vezes no mesmo dia e isso está a começar a aborrecer-me...

- E depois ainda te admiras de não ser amigo de nenhuma ex tua...

Santana Lopes: «Se eu sair do PSD não volto»

... ...Sim, sim, acredito mesmo nisso... ...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Outeiro do vende avais

- Sabes que eu sempre fui uma pessoa muito recta…

- Então e essa corcunda nas costas?

- Ah, isso é de nascença…

Right now

- ... ...

- ... ...

- Nada me irrita mais do que pessoas que falam por falar porque têm sempre aquela necessidade de estar a dizer alguma coisa.

- E aquelas pessoas que respondem sempre prontamente a tudo apenas e só porque não conseguem estar caladas?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Walk unafraid, I'll be clumsy instead

Ironicamente, cerca de 90% do que eu digo com ironia é levado a serio!

I've got my spine, I've got my orange crush

Os silêncios, na era da tecnologia, tornaram-se tão mais desconfortáveis, que até mesmo não estando cara a cara com a pessoa com quem se está a falar, uma bolita amarela e um traço em arco, acompanhado de uma frase insípida, se torna vital digitar para que não se fique com aquela urticária causada por tais silêncios! É cada vez mais importante falar, dizer coisas, o que quer que seja, tenha ou não significado, ou qualquer tipo de importância! O dia-a-dia tornou-se tão igual, tão vulgar, que os pormenores todos passaram a ser insignificantes e ao mesmo tempo muito importantes durante dez segundos! É quase tão impossível lembrar-me de uma conversa destas, ou de um qualquer comentário, como lembrar-me do que comi na passada segunda ao almoço!
O dia-a-dia resume-se a fazermos parte, ou a assistir, a um duelo para ver quem consegue dizer mais coisas sobre si mesmo, ou então tentativas ridículas e patéticas de querer demonstrar que se tem coisas, gostos, em comum, concordando com tudo o que a outra pessoa diz, abanando freneticamente a cabeça enquanto se diz pois pois, ou pois é, mesmo que na realidade não seja assim, ou substituindo-a automaticamente nesse momento, para que depois, dez minutos depois, nunca mais se lembre do que foi dito ou feito naquele momento! Na era da tecnologia, com cada vez mais pessoas a popular o mundo, onde cada mais os extremos se aproximam do centro, não deixando perceber onde se situa agora o equilíbrio, a solidão foi substituída por ansiedade e pela repetição interminável do mesmo dia. A carneirada mole finalmente uniu-se para vencer. Só não se sabe é o quê!
A propósito, só para que fique registado, hoje já me disseram, pelo menos umas vinte e três vezes, que está frio, e eu respondi, sempre: está mesmo!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Número primo

Estava tão habituado a viver uma vida que não era a sua, que um dia chegou a casa e ninguém o reconheceu.

Banda Sonora

Morreu! Não sei o quê. Só sei que morreu! Também, se eu quisesse mesmo muito, e por muito esforços que eu fizesse, não saberia como explicar o que é. Nem descrever o que é eu sei! Só sei que se sente. E, agora, sei que morreu. É apenas o que sinto. Sem conseguir, de igual forma, explicar porque é que é isto que agora sinto. Não se trata de pessimismo, negativismo, conformismo, ou outra coisa qualquer que o valha. É, pura e simplesmente, aquilo que a consciência, outra coisa que apenas se sente, me diz. Não me deixa contente, obviamente, mas também já não me deixa triste, ou infeliz. Tornou-se talvez um hábito, como alguém se habitua à ideia de que um ente querido morreu. E vive-se com isso, com a certeza de que tal morte retirou também uma parte da vida de outra pessoa, continuando a pessoa na mesma a viver, mas carecida para o resto da sua vida de mais uma pedaço dessa mesma vida. Que, por vezes até da memória consegue escapar. Vá-se lá isso conseguir explicar! Ninguém morre de uma vez e pronto. Vai-se morrendo aos poucos. Alguns até ficarem secos de vida! E depois pumba, morrem também. De tempos a tempos, de quando em vez, recordo-me desse sentimento que morreu. Gostava mesmo de conseguir sentir outra vez tal sentimento. De ser capaz de fazer com que isso acontecesse de facto. Se fosse possível, trocaria até uma outra coisa qualquer ainda viva em mim por tal sentimento, nem que fosse pela possibilidade de o viver apenas mais uma vez. Gostava mesmo...

Calexico - All systems red

Felt a tremor stir beneath my breath
That forecasts storms on the gallup poll
Woke up from the nightmare news
Hoping to read a sign in the morning air
Nothing changes here and nothing improves
All say my friends who just want out
And leave these troubles behind
Scatter like paper in the eye of the storm
Documented with a silenced note
That's only heard from far, far away
More cards in play, following suit
Everywhere you look, you only see red
Wonder when to call off the race
Watching a horse running down its last legs
Just when you think it couldn't get much worse
Watch the numbers rise on the death toll
And the chimes of freedom flash and fade
Only heard from far, far away
I hear you can't trust in your own
Now the grey is broken in the early morn
And the words forming barely have a voice
It's just your heart that's breaking without choice
Everything you've learned is distorted in your head
Bouncing off the walls, unraveling the thread
Staying up with the blue screen glow
Forgetting everything you ever dreamed years ago
When the dread is flowing down my veins
I want to tear it all down and build it up again
Tear it all and build it up again
Hear your heart that's breaking without choice
I want to hear those chimes ring again
Ring again

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Banda Sonora

Acordei. A primeira coisa que faço, sempre que acordo, é olhar para a janela. Durmo sempre com os estores todos para cima, e uma das várias coisas que me dão prazer é receber os raios de sol matinais no quarto! Gosto de ser acordado com a claridade e com o calor do sol a baterem-me na cara, de ficar dentro da cama, dez, quinze, minutos a olhar para a janela a aproveitar o quente dos cobertores e dos lençóis. Não há nada melhor do que depois de vários dias de chuva de Outono um dia com um Sol resplandecente. Forço-me para me levantar, e é com muito custo que puxo os cobertores e saio da cama! O frio que me invade o corpo faz com que eu olhe compulsivamente para o relógio e me aperceba, como de costume, que já é mais tarde do que devia ser! Começo a tentar despachar-me o mais rápido possível. Gosto de ouvir musica enquanto tomo banho e me visto. Antes de iniciar esse ritual, dirijo-me à sala para escolher um CD. Normalmente, de manhã, prefiro ouvir um CD que já não toque há muito tempo, perco cinco, dez, minutos a escolher um que me apeteça mesmo a ouvir e deixo-o a tocar enquanto penso na última vez que tinha ouvido aquela musica e prossigo com os meus os demais afazeres. Assim que estou pronto para sair de casa, não resisto ao passar pela guitarra, ou pelo baixo, em agarrar um deles e começar, ou pelo menos tentar, a tocar a música que ainda não desliguei e que já devia ter desligado há mais de vinte minutos. Detesto ser um escravo do relógio, e acho que aqueles cinco, dez, minutos que passo a tocar antes de sair de casa me fazem sentir que eu sou o dono do meu tempo. Quando chego ao carro, está coberto de humidade. Os vidros estão todos enevoados e o carro está gelado por dentro. Quando saí do estacionamento e cheguei à estrada que me vai levar ao trabalho, apercebo-me que o céu está completamente azul e que o dia, apesar de estar bastante frio, está indescritível! Não consigo ir já para o trabalho, viro no sentido contrário em direcção ao mar. Passo por um cafezinho relativamente perto da praia e estaciono o carro. O café tem uma pequena esplanada com duas mesas e quatro cadeiras em ferro. Como o Sol já se encarregou de secar tudo, vou lá dentro fazer o meu pedido, e sento-me na esplanada a ler um jornal qualquer que estava em cima de uma mesa dentro do café. Enquanto espero que o empregado me traga o pequeno-almoço, penso na desculpa que vou usar para ter chegado atrasado ao trabalho, não me ocorre nenhuma que não tenha dito ultimamente, e chego novamente à conclusão que detesto o meu trabalho. Mais uma vez, martirizo-me por nunca ter pensado antes no que gostaria de ter feito quando fosse grande e olho de repente para um lado e depois para o outro com medo que alguém possa ter ouvido os meus pensamentos. Apercebo-me que estou sozinho, ali, com a minha torrada e o meu chá que entretanto o empregado me tinha trazido. Faço planos para mudar a minha vida. Nunca é tarde para mudar, nunca é tarde para sonhar, são os pensamentos que me varrem a mente enquanto como a torrada. Não me apetecia nada ir trabalhar hoje, é o que eu penso enquanto me dirijo para a areia da praia e me sento numa rocha perto do mar a fumar um cigarro. Fecho os olhos e deixo que o Sol me aqueça a cara. Fico ali, não sei quanto tempo, apenas a sentir o Sol na cara e o som do mar! J’adore la campagne, murmura ela, enquanto olha fixamente o mar! Lembro-me, quase sempre, quando estou junto ao mar, da primeira frase do poema que escrevi há uns anos. Arranjo todas as razões e mais alguma para justificar, outra vez, a inércia abnegada que mantive e mantenho quando chega a altura de fazer as minhas escolhas. Digo para mim próprio que o sonho só serve para ser sonhado e que a felicidade é aquilo que eu tenho, a felicidade é o poder de conseguir sonhar enquanto faço o que todos fazem para poder sobreviver. Eu não sei viver sem a possibilidade de poder continuar a dizer, um dia, um dia hei de… … O mar continua calmo e a bater suavemente na areia. Entro no carro e fico lá dentro a sentir o calor do Sol durante mais alguns minutos. Retorno o caminho para o trabalho a pensar numa nova desculpa para ter chegado atrasado…

Lou Reed – Dirty Boulevard

Pedro lives out of the Wilshire Hotel
he looks out a window without glass
The walls are made of cardboard, newspapers on his feet
his father beats him 'cause he's too tired to beg

He's got 9 brothers and sisters
they're brought up on their knees
it's hard to run when a coat hanger beats you on the thighs
Pedro dreams of being older and killing the old man
but that's a slim chance he's going to the boulevard

He's going to end up, on the dirty boulevard
he's going out, to the dirty boulevard
He's going down, to the dirty boulevard

This room cost 2,000 dollars a month
you can believe it man it's true
somewhere a landlord's laughing till he wets his pants
No one here dreams of being a doctor or a lawyer or anything
they dream of dealing on the dirty boulevard

Give me your hungry, your tired your poor I'll piss on 'em
that's what the Statue of Bigotry says
Your poor huddled masses, let's club 'em to death
and get it over with and just dump 'em on the boulevard

Get to end up, on the dirty boulevard
going out, to the dirty boulevard
He's going down, on the dirty boulevard
going out

Outside it's a bright night
there's an opera at Lincoln Center
movie stars arrive by limousine
The klieg lights shoot up over the skyline of Manhattan
but the lights are out on the Mean Streets

A small kid stands by the Lincoln Tunnel
he's selling plastic roses for a buck
The traffic's backed up to 39th street
the TV whores are calling the cops out for a suck

And back at the Wilshire, Pedro sits there dreaming
he's found a book on magic in a garbage can
He looks at the pictures and stares at the cracked ceiling
"At the count of 3" he says, "I hope I can disappear"

And fly fly away, from this dirty boulevard
I want to fly, from dirty boulevard
I want to fly, from dirty boulevard
I want to fly-fly-fly-fly, from dirty boulevard

I want to fly away
I want to fly
Fly, fly away
I want to fly
Fly-fly away (Fly a-)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Walk away

- Muito boa tarde. O meu nome é Onofre Sebe e estou aqui para lhe fazer uma oferta irrecusável! Para que isso seja possível, perguntar-lhe-ia de imediato se não está interessada em saber como ganhar, de uma forma totalmente gratuita, toda a minha confiança? Ficou surpreendida não é verdade? Pois pode acreditar! Com o inovador método, estabelecido após aturados estudos antropológicos e sociológicos, é hoje perfeitamente possível, e com apenas três simples acções, obter a total e completa confiança de um ou mais interlocutores que consigo interajam, podendo inclusivamente, ser alguém completamente estranho, em todo o sentido que a palavra possa ter, a si! Como é isso possível? É a pergunta que decerto lhe atravessa a mente neste preciso momento não é verdade? Pois muito bem, respondendo à sua questão, este método, simples e eficaz, tem como principal pressuposto, a total ausência de medo inconsciente, do julgamento, à priori, ou à posteriori, de qualquer um dos seus interlocutores! Um pressuposto ousado e impossível, dirá a senhora, sem qualquer tipo de razão! Pois não é! Asseguro-lhe e garanto-lhe aqui e já que não é! O segredo, alias, de tão inovador método, reside precisamente nesse facto! Uma vez que estamos a falar de um medo, na maioria das vezes, imperceptível, que todas, mas todas, as pessoas padecem, chegou-se à conclusão que a minha presença aqui, primeira acção, o alertar para o medo inconsciente existente, segunda acção, vão fazer com que a senhora, neste caso, possa, a partir deste momento, ter consciência de tudo. Sabendo que padece de um medo inconsciente de ser julgada por aqueles que conhece e que não conhece, é agora para si muito mais fácil lidar com os outros e com aquilo que eles possam ou não pensar de si! A terceira acção será então uma acção por si efectuada e que consiste em dizer para si mesma, eu não me importo com o que os outros possam dizer ou pensar de mim desde que eu aja de acordo com o que realmente penso, sinto e digo! Está preparada para dar este passo importante na sua vida? Repito, mais uma vez e para que não restem duvidas, para que tenha mesmo a consciência de tudo, perdoe-me a prolixidade, tudo isto é absolutamente grátis!

- Pois não sei… sabe, eu tive muito gosto em ouvi-lo e gostava de o poder ajudar, mas o meu marido agora não está em casa e essas coisas de pensar e dos medos é normalmente ele quem trata disso. Desculpe está bem, mas eu agora tenho de ir andando…

- Compreendi perfeitamente sábia senhora! Saiba vossa excelência que possuo em carteira, igualmente de imediato disponível e de uma forma completamente grátis, o método revolucionário que lhe permitirá desde já conseguir tomar decisões e pensar por si própria! Como é que consegue fazer isso, dirá a senhora espantada e curiosa? Muito fácil cara senhora, muito fácil, basta que, apenas e tão-somente, acredite em si! Ah! O que tem a dizer-me disto?...

- Pois, é como lhe digo…olhe, eu tenho mesmo de ir para dentro, se quiser passe cá mais logo que o meu marido já deve cá estar. Boa tarde…

TRUM

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Ajudem-me, Ó carneirada mole, levantem os cornos da Palha. Os vossos pastores, são os vossos carrascos e se fogem ao cão, têm o lobo à vossa espera...

A propósito da crise, chegamos a um ponto em que Portugal tem a quinta gasolina mais cara da UE (!), e Lisboa chega a ser mais cara que Londres (!), no que a bens de consumo se refere! Ora, eu não percebo nada de economia, mas como é que os senhores dos sectores, todos, podem andar sempre com queixumes e sempre a dizer que tem de haver mais consumo, se as pessoas não têm dinheiro e estão endividadas até à 5ª geração? Então mas não há por aí nenhum sector, ou até mesmo um comité qualquer, para pedir que os ordenados das pessoas sejam significativamente aumentados? Só os bens e serviços é que aumentam, ao ponto de, aí sim, estarmos entre os primeiros da UE? É que a mim parece-me que se as pessoas tiverem mais dinheiro, há, por consequência, mais consumo, mais consumo gera investimento, mais investimento gera emprego, e por aí adiante. E esta coisa de um dono de uma empresa, ou de um banco, bem como os respectivos accionistas, queixarem-se que o lucro decresceu não sei quantos pontos, e que em vez de terem não sei quantos milhões de lucro, vão só ter alguns milhões de lucro, enquanto a maioria das pessoas que trabalham para esses senhores têm ordenados de 450 Euros a recibos verdes, ou até mesmo, para aqueles que já vivem mesmo bem e acima da média, de 600 Euros por mês com contratos de trabalho precários, já não está, mesmo, com nada. Será mesmo só o lucro privado para meia dúzia de pessoas a única coisa que importa? E ninguém faz nada? Fica-se assim, impávido e sereno a assistir a isto e tudo enquanto se reclama do estado actual das coisas?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Conselho e rapé só se dá a quem quer

- Eh Zé? Parece que levas brasas nos pés! Para onde é que caminhas com tanta pressa rapaz?

- Deixa-me cá mas é! Tenho de ir resolver um problema e já estou atrasado. Vou agora apanhar o caminho da perfeição…

- Não sejas tonto Zé! Porque é que não segues antes pelo caminho da felicidade que é mais bonito e tudo? Ainda por cima agora, nesta altura do ano, está tudo cheio de cores…

- Pelo caminho da felicidade? Qual é que é a diferença? É na mesma direcção, são paralelos! Eu estou a vê-lo agora daqui, até lhe posso acenar se quiser! Alias, vou a vê-lo o tempo todo, está sempre ali, mesmo ao meu lado…

- Mas não se cruzam nunca! Pois com certeza que podes ir por aí! E se calhar até é mais perfeitinha a paisagem! Mas o que é que te interessa ir a olhar sempre para o lado para ver a paisagem? Tu tens de olhar em frente, fazer parte da paisagem! Para a frente é que é caminho Zé! Não sejas tonto pá…Segue o caminho da felicidade…

- Sabes, eu já fiz essa estrada uma vez, percebo aquilo que queres dizer…Já sei que a vista é tão bonita que se fechar os olhos, consigo de imediato imaginar que faço parte do caminho, que sou parte integrante da paisagem! Consigo, por momentos, imaginar que todas as pessoas que vão por ali estão, nesse preciso momento, a imaginar também que fazem parte do caminho...Quando segui esse caminho, em momento algum olhei sequer para o lado, nem duvidas tive! É um caminho muito envolvente, mas muito exaustivo! Faz-se uma boa viagem, é certo, mas não se descansa nada! Prefiro ir agora por aqui, ouvi dizer que a estrada é melhor, que está perfeita…Já se sabe como é não é? À medida que a idade vai avançando, a rebeldia da juventude começa é a querer sopas e descanso… E, a bem da verdade, diga-se, acho que as minhas costas não aguentam esse caminho outra vez!

- Olha que não Zé, olha que não…A estrada até pode estar melhor, mas não é a mesma coisa, não se tem tanto prazer na viagem como se tem na outra, e olha que o caminho ainda é longo! Mas tu é que sabes Zé…Meu bom amigo, se queres ir pelo caminho da perfeição, só te posso desejar boa sorte e boa viagem…AH, e antes que me esqueça, ali mais para a frente, não se me recorda agora bem onde, cuidado com o cruzamento entre o caminho da estupidez e o caminho do egoísmo! Eu sei que te apresentas pela direita do egoísmo e tens prioridade sobre ele, mas quer-me parecer que a estupidez se apresenta pela tua direita, e olha que vêm cá com uma bisga os que vêm desse caminho, é preciso ter um cuidado do caraças…

- Olha-me esta! Estás mesmo a ficar gagá! Então os caminhos são paralelos! A estupidez e o egoísmo cruzam-se também com a felicidade…Eu vou-me mas é embora que agora ainda estou mais atrasado. Até mais logo…

- Até mais logo, boa viagem…

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Present tense

Era terça-feira outra vez! Matematicamente, todas as terças a sua disposição mudava! Tornava-se birrento, ressabiado, conflituoso até, o que apenas servia para que todas as terças o dia fosse, invariavelmente, horrível, e, por consequencia, que o ódio à terça-feira fosse crescendo exponencialmente semana após semana. Não tendo sido sempre assim, apesar de nunca o ter revelado a ninguém, ele sabia perfeitamente, e desde quando, porque é que não gostava deste dia da semana em particular. Habituado, desde tenra idade, a fazer uma e uma única só associação por dia daquilo que era mais marcante para ele nesse dia, toda a sua vida se tinha transformado num encadeamento de memórias associadas a outras memórias como se de uma película contínua de um filme se tratasse. Por vezes, raramente, com o intuito de conseguir provar a si mesmo a sua existência física, e para que pudesse confirmar que podia, sempre que lhe aprouvesse, materializar tudo aquilo que mentalmente encadeava, fazia uma associação de um determinado momento, sempre matutado com todo o detalhe, a algo corpóreo! Desta forma, tendo perfeita noção de tudo o que se tinha passado na sua vida desde que se recorda de ter memória, sem no entanto conseguir explicar porque é que decidiu começar a fazer tal cadeia de pensamentos, detalhe que a determinada altura quase o levou à loucura, numa bela e solarenga tarde de terça-feira, em Agosto, decidiu associar um sentimento de felicidade à luz do dia que lhe batia na cara, ficando tal momento marcado no filme da sua vida como a magnifica Terça-feira (Take 6939). Só que, tal como a sua avó tantas vezes lhe havia dito, e como tão claramente se podia ver representado no take 2922, Agosto mês de desgosto! Onze anos mais tarde, numa terça-feira em tudo igual à magnifica terça-feira, facto que o levou a concluir que de onze em onze anos os dias são exactamente iguais, a associação 10962, levianamente feita devido ao excesso de confiança gerado pela certeza de que um dia pode mesmo ser exactamente igual a outro, transformou-se na peça que subitamente se desequilibra e quase consegue despoletar a queda abrupta e fugaz das restantes as peças à sua volta. Desde então, as 1826 associações volvidas ficaram indelevelmente condicionadas pelo sucedido, coisa que passou a fazer com que o seu humor à terça-feira nunca mais tivesse sido o mesmo. Assim, numa terça-feira, talvez por ironia do destino, ou porque o destino afinal não existe, de manhã, ainda antes de sequer ter sido congeminado o take mental 1827 (uma vez que desde a magnifica terça todas as associações só poderiam ser feitas precisamente no minuto cinquenta e nove da vigésima terceira hora de cada dia, para que nada pudesse atropelar uma associação e fazendo inevitavelmente com que cada take tivesse necessariamente de ser rodado à primeira, premissa alias estabelecida da mesma forma que começou a fazer as associações, mas que, inexplicavelmente, nunca o motivo de tal lhe apoquentou o espírito) e enquanto um raio de sol lhe iluminava a cara, tropeçou e embateu com a cabeça violentamente no lancil do passeio! Até hoje, a única coisa que consegue dizer sem se babar, sem no entanto compreender o que significa, é a pergunta: Valeu a pena?

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Do prato à boca perde-se a sopa, ou a incapacidade de ver o que deveria realmente importar...

Ele

Hoje, depois de ter ido ao sitio do costume almoçar e de ter colocado o tabuleiro em cima da mesa, quando me preparava para me sentar, reparei que uma gaja, com enormes mamas, se tinha sentado à minha frente e tinha fixado o olhar em mim. Uma gaja com umas mamas daquele tamanho a olhar para mim! Só pode ser o meu dia de sorte, pensei eu enquanto dava a primeira trinca e respondia ao olhar dela com um olhar extremamente sedutor. Infelizmente, como é costume dizer, tudo o que é bom acaba depressa. Mal tinha eu pensado ainda que tal criatura poderia perfeitamente ser a mulher que me levaria ao altar, quando um pingo de azeite cai, sem dó nem piedade, em cheio na camisa branca dela, mesmo em cima do seio esquerdo. Apesar de me ter incomodado bastante notar que ela nem sequer reparou na nódoa que agora ostentava, mantendo-se a olhar para mim, aquilo que me fez desistir de imediato de todos os pensamentos que começavam a formular-se na minha cabeça, foi o facto de ter concluído que afinal nunca na vida iria conseguir casar com uma gaja a quem semelhantes situações irão acontecer o resto da vida. Se ela ao menos tivesse as mamas mais pequenas, tenho quase a certeza de que tal acidente nunca teria acontecido hoje. O Zé é que tem razão, aqui não se vê gaja nenhuma de jeito. Ele hoje já não veio, diz que vai começar a ir a outro sitio almoçar, e eu em vez de me armar em teimoso vou continuar a ir almoçar com ele. A partir de hoje não almoço mais aqui...

Ela

Não acredito nisto! Hoje, no meu primeiro dia de trabalho, a minha colega, que foi mesmo uma querida, para eu me começar a sentir mais à vontade e começar a integrar-me, disse-me para ir almoçar com ela, que dessa forma nós podíamos ir conversando e eu ia começando a saber e a conhecer melhor os cantos à casa. Até aí tudo bem. O problema é que quando fomos almoçar, se calhar porque ainda me sentia um bocadito nervosa, ou ansiosa, não sei, dei por mim a olhar para um gajo, que acabou por se sentar à nossa frente, e que não deixou de olhar mais para mim! Quando ele entrou, eu nem reparei que estava a olhar fixamente para ele, só que eu tenho quase a certeza que o tinha visto no metro de manhã, eu nunca me esqueço de uma cara, e estava a ver se era mesmo do metro ou se era de outro lado qualquer! Bom, às tantas o gajo, que diga-se de passagem era horrível, começa a olhar para mim de uma maneira tão assustadora que não consegui dizer mais nada durante o tempo todo que estivemos a almoçar. Mas o pior de tudo foi quando deixei cair uma pinga de azeite no peito! Eu já estava tão atrofiada com aquele gajo ali a olhar incessantemente para mim, que fingi não ter visto a pinga a cair só para não me pôr ali a mexer no peito. Bom, se o gajo já estava a olhar para mim daquela maneira sem me conhecer de lado nenhum, nem imagino o que é que teria feito caso eu tivesse tocado numa mama! Pelo sim pelo não, vou falar com ela para nunca mais irmos ali almoçar...

E Ela

Não posso dizer que não pensei nisto antes, ou que a culpa não é totalmente minha. Eu sabia muito bem que ouvir o que os outros me dizem, ou que fazer as coisas, a minha vida, pela cabeça dos outros nunca iria dar um bom resultado...Bom, agora também não interessa nada estar a chorar sob o leite derramado. O mau é que, com o rumo que a minha vida tomou, agora já é completamente irreversível, já não a volta a dar, nunca na vida vou conseguir retomar a coisa do ponto onde eu deixei de fazer as coisas por mim e comecei a fazer o que me diziam ser melhor para mim. Eu era tão divertida, tão bem disposta, tinha sempre tantos amigos e amigas a sorrir perto de mim, sentia-me mesmo bem perto deles, e sei que as pessoas se sentiam bem perto de mim também. Tudo bem, não tinha dinheiro para nada, vivia num apartamento minúsculo. E depois? Qual é que era o problema? Mas não, tens que arranjar um trabalho a serio, tens que começar a dar uso ao curso que tiraste, que tanto nos custou que tu o conseguisses terminar, com todas as condições, com as melhores condições...Não podes pensar que a vida é uma brincadeira, um dia queres ter filhos, queres ter uma casa, uma vida, e depois como é, vais pedir aos teus grandes amigos, aqueles que levam o mesmo tipo de vida do que tu? Eu tenho 34 anos, aquela conversa, sei lá eu porquê, começou a fazer sentido de repente! Arranjei este trabalho e comecei uma vida nova, a trabalhar a serio, com empréstimos para a casa e para o carro, ter contas de água, luz, gás, tudo pago a tempo e a horas. Estupidamente, se calhar, e inconscientemente, para me castigar por estar a fazer uma coisa na qual nem sequer acredito, deixei de ser uma pessoa social. Ou melhor, no trabalho, trabalho. O que é que ganhei com esta atitude, ao fim de um ano a trabalhar aqui? O meu chefe veio dizer-me, meio em surdina, porque eu acho que ele gosta muito das minhas nádegas, que tenho de me dar melhor com os meus colegas de trabalho, que ouviu dizer que as pessoas não me "gramam" muito, disse ele num tom moderno e eloquente! Se ouvir o que me disseram e ter vindo para aqui trabalhar já não tinha sido o suficiente para arruinar a minha vida, ainda decidi dar ouvidos ao que aquele balofo sebento me disse, para o meu bem, como ele gostou de frisar! O que é que importa que eu seja competente e que o funcionamento do departamento tenha melhorado substancialmente desde que estou ali a trabalhar? Bom, hoje, começou a trabalhar aqui aquela gaja nova. Vi nisso uma boa oportunidade para fazer amizade com ela e começar a ter uma amiga aqui dentro. OK, uma aliada. Era perfeito, uma gaja nova, que não tem a cabeça cheia da conversa dos inúteis e das parvas que aqui trabalham, seria mesmo perfeito para ter a atitude social que me falta. Passei a manhã com ela, a explicar-lhe tudo e mais alguma coisa, convidei-a para irmos almoçar e tudo, a fim de cimentarmos o nosso relacionamento. Fomos almoçar ao sítio onde há quase um ano que vou almoçar porque vai lá todos os dias um gajo pelo qual, estupidamente, me apaixonei! Apaixonei-me só de olhar para ele e de ouvir as piadas que costuma contar ao gajo que costuma ir almoçar com ele, que por acaso hoje não estava com ele! E digo que estou apaixonada porque é o primeiro gajo com quem ainda não tive lata de ir falar com ele, meter conversa, dizer uma piada, e começar a falar sem qualquer tipo de problema. Não sei, esta coisa toda do trabalho, das responsabilidades, faz com que eu nem consiga ser eu às vezes, não sei explicar. Por outro lado gosto do facto de parecer uma parvinha a olhar embasbacada para ele, faz-me sentir que a parte sonhadora de mim ainda existe! Quase um ano a olhar para ele, há espera que repare em mim, que me diga alguma coisa. De repente, não sei porquê, hoje ele passou o almoço quase todo a olhar para a nossa mesa, fiquei doida de contente, parecia uma miúda excitada, finalmente ele reparou em mim! Um ano! Passou um ano apenas! Um ano em que quase dei cabo da pessoa que eu era! Tenho muita esperança, agora que ele finalmente reparou em mim, que a minha vida volte ao normal...Mal posso esperar pelo almoço de amanhã...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Banda Sonora

Fascina-me sempre ver aquelas pequenas partículas incandescentes que, de quando em vez, caiem abruptamente e formam um minúsculo clarão que se reflecte, aqui e ali, nas pequenas conchas de pedaços de papel rasgado que ao longo do decorrer do tempo vão surgindo, lenta e espontaneamente, a partir dos despojos que foram atirados e espalhados ao acaso por todo o cinzeiro. Cada vez que isso acontece, recordo-me de imediato dos acampamentos de verão na praia, das toalhas estendidas ao acaso nos estendais improvisados, e do barulho do silêncio misturado com a música de fundo que só o fogo é capaz de fazer. As sombras, que as chamas tremeluzentes desenham em cada uma das caras taciturnas, originam apenas contemplação, fazem esquecer a importância relativa de um qualquer plano minuciosamente delineado, ou de uma qualquer expectativa frustrada determinada por um objectivo que repentinamente, sem qualquer explicação lógica, se tornou obsoleto, e por um momento, o som dos acordes de uma guitarra desafinada e o barulho de gargalhadas genuínas tornam-se passado, presente e futuro! Cada vez que me perco a olhar para o clarão, que de vez em quando se forma no cinzeiro, invariavelmente esqueço-me que à medida que o clarão se esvai, os motivos pelos quais se desejou ir ver o por do sol num dia que terminou com chuva e vento deixam de ser um pretexto para se transformarem em desilusão, que a vontade estreme em ver o mar bater dá lugar à indiferença, e que sem que se tenha conseguido saber porquê, se ignora sempre e por completo aquilo que, sem se saber como, já se soube!


James - Stripmining/Refrain

When the world swallows whole all you've known
There are no landmarks you can recognize
Where is the jewel that will never fade
Will not decay with old age
Maybe a death, maybe the depression
Those things you thought you could lean on
Are suddenly just an impression
Well, if you put your trust in things of dust
You're gonna feel the pain of loss
The pain of loss
When the world swallows whole all you have known
There are no landmarks you can recognize
We've got no understanding of this body's needs
We've got no understanding of real philosophy
We've got no understanding of mortality
So we keep putting our trust in things that rust
And then we feel the pain of loss
Keep putting my trust in things that rust
And then I feel the pain of loss

video

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

That's why we only work when we need the money

Ouve...Consegues ouvir o barulho do silêncio? É ensurdecedor! Desde ontem que ficou só este silêncio, a latejar continuamente. Ouve...Ouve agora, não consegues ouvir? Até aquele candeeiro lá em baixo, que costuma estar sempre aceso, de dia e de noite, se apagou de repente! Ouve...Não, não é para ouvires o candeeiro a apagar-se, já está apagado desde ontem, ouve o barulho que o silêncio faz...Ouve... A rua está escura, sombria!... Foi ontem, reparaste nisso? Tenho quase a certeza que é desde ontem que se consegue ouvir este silêncio, mas não tenho a certeza, já não me lembro bem! Não notaste que não ouves o vento a soprar, que não consegues ouvir os galhos a ranger, nem as folhas a voar? As rolas calaram-se subitamente e deixaram de voar, esconderam-se não sei onde! Os cães já não ladram freneticamente, não tugem sequer! Não se ouve ninguém a passar ou a fazer barulho! Nem o guizo do gato, que de vez em quando se ouve vindo de algures, se ouviu mais, e o gato hoje não veio cá, como de costume, depois da hora do jantar, para ver se há restos de peixe que possa comer!... Parece que são quatro e vinte sete da manhã há horas! A Lua está cheia desde que olhei para ela! É a única luz que brilha lá fora, nem uma estrela se consegue ver!..Já viste? Lá em baixo na rua? Ali, no meio da estrada, uma folha que aparenta ter caído agora da árvore! Está viçosa e verde ainda! Recordo-me daquela folha ali durante toda a minha vida, sempre assim, naquela posição! Nunca soube se está deitada de costas ou de frente! Nem sei como é nunca ninguém a pisou! Gosto de andar pela rua e pisar as folhas secas pelo Sol, agrada-me o estalido que faz quando as piso!... Não te recordas daquela folha ali no chão? Parece-me que já estava ali ontem!...Achas que o tempo parou? Dá a sensação que estamos há horas, ou mesmo dias, semanas, meses, a viver o mesmo momento! Vezes sem conta o mesmo momento! Se calhar, apesar de ser sempre o mesmo momento, este multiplica-se em vários momentos iguais, só para dar a ilusão de que nos estamos a mexer! Mas eu sinto que é o mesmo momento, e que nós estamos sempre aqui parados. Embora não o consiga comprovar, é isso que acontece, quase de certeza! Não achas que é isso que acontece?... Há quanto tempo é que eu estou aqui à janela? Viste a que horas vim eu para aqui? Que horas é que são? Está de noite há não sei quantos dias! Nunca mais é de dia para eu me poder levantar. Como é que eu vou saber a altura certa para me poder levantar? Não passa ninguém- E o barulho do silencio...O barulho do silêncio está a deixar-me exasperado! Ouve. Ouve lá o barulho do silêncio, já ouviste? Não te incomoda?...A mim também não.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Complexos #20

- Olá, como chamas-te?

- !!! Como chamas-te? Não é como chamas-te que se diz, é como é que te chamas!

- Não, eu queria mesmo dizer como chamas-te. Sabes, como tu és uma granda brasa, e consegues, definitivamente, acender a minha chama, eu decidi perguntar-te como chamas-te. Qual é a tua graça?

- Ouve, isso é das coisas mais estúpidas e imbecis que já ouvi! Costumas meter assim conversa com toda a gente?!...
É sempre a mesma coisa! Passo a minha vida toda à espera que alguém tenha uma abordagem minimamente inteligente, eu já nem peço muito, apenas uma abordagem minimamente inteligente, e nada! Nunca me acontece nada! Digo-te já, se essa é a tua abordagem, podes dar meia volta e seguir o teu caminho. Porque eu, muito sinceramente, já não tenho pachorra nenhuma para coisas estúpidas!

- Bom, já pensaste que se calhar és tu que estás a colocar as tuas expectativas tão altas que nunca as vais conseguir atingir? O que é que é uma abordagem inteligente? Para mim, apesar de considerares estúpida a abordagem que fiz, quer tu acredites ou não, eu raramente faço abordagens e achei que seria uma maneira original de te perguntar o teu nome. Se reparares bem, existe na pergunta "como chamas-te?", a inocência de uma criança que tudo quer saber. Existe a curiosidade de alguém que te achou digno da coragem de tentar uma aproximação, correndo o risco de fazer figura de urso. Existe a audácia de tentar, com uma pergunta arrojada, uma abordagem diferente. Enfim, existe na pergunta, "como chamas-te?", uma infinita miríade de conotações, que só alguém com muita má-fé poderá dizer que é pouco inteligente. Quanto muito, no mínimo, seria estúpida! Mas, original, nunca pouco inteligente...

- Olha, a sério, eu não tenho mesmo paciência, vou-me embora está bem? Xauzinho

- Xauzinho! Ao menos despede-te em português…

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- Man, podes parar. Já vi tudo, não precisas de dizer mais nada. Tu és, efectivamente, o gajo mais totó ao cimo da terra! Tu achas mesmo que isso foi uma abordagem como deve ser? Achas mesmo que isso é forma de conheceres uma gaja? Foda-se… …

- Então o que é que tu queres? Foi o que me ocorreu. Há uma pressão psicológica muito grande com esta coisa da abordagem inteligente. Tu dizes que as gajas hoje em dia gostam de ser abordadas inteligentemente, mas isso é uma coisa altamente subjectiva. Perguntar a uma gaja, "como chamas-te?", é, para mim, uma abordagem muito inteligente, exactamente pelos motivos que eu lhe disse a ela na altura e como acabei de te contar. Foi o que me ocorreu naquela noite, o que é que tu queres?...

- Não seja parvo man! Estou farto de te dizer para não seres parvo. Uma coisa é a tua inteligência, outra coisa é a inteligência das gajas! Isso para ti, embora eu ache essa abordagem uma granda merda, até pode ser inteligente, mas não te esqueças que tu vais dizer isso a uma gaja. Não podes, em momento algum, pensar que ela terá o mesmo sentido de humor, ou que pense da mesma forma que tu. A melhor abordagem de sempre, tal como eu já te disse, e tu não acreditas, é perguntar a uma gaja, se a podes conhecer, ou então se a podes conhecer melhor...

- NÃO! Recuso-me terminantemente a meter conversa com quem quer que seja com essa frase…

- Não sejas totó pá! Esta frase é a melhor que pode existir. Perante a reacção delas a esta frase, isso irá determinar o teu comportamento a partir daí. É aí então, e somente aí, é que entra a questão da inteligência. Só depois de veres a cara dela, depois de veres o que ela diz, ou não, é que tu podes dizer alguma coisa original ou inteligente e captar a atenção dela. Mas sempre, e isto é que é muito importante, sempre depois de ela dizer alguma coisa. É a mesma coisa que acontece no boxe. Os gajos que lutam no boxe aguardam sempre um ataque para ver o ponto que o adversário deixou desguarnecido e poderem depois atacar...

- Desculpa, mas não acredito que as coisas sejam assim. Custa-me muito a crer que as coisas sejam mesmo assim, o que é que tu queres que eu faça?

- Custa-te a crer porque tu não sabes. Mas é assim, o que é que tu queres fazer? Tu, em relação a uma gaja, só podes reagir, não agir. Repara numa coisa, quantas vezes conseguiste tu dormir todo nu com ela toda nua ao teu lado?

- Não sei bem… … mas poucas, ela não gostava de dormir toda nua… …

- Pois! Ela e todas as gajas ao cimo da terra! Um gajo gosta é de dormir todo nu e sentir a babe ali, toda nuazinha, tal como Deus a pôs ao mundo, bem ao nosso lado. Um gajo gosta de sentir pele, de tocar e curtir a cena, mesmo quando está a dormir. Mas achas que as gajas percebem, compreendem, ou querem isso? Népia! Por muito que tu digas, ou faças, tudo o que ela quer, não vais conseguir dormir com ela toda nua ao teu lado nunca. Ou é porque ela não se sente confortável, ou porque lhe faz impressão, ou porque depois rebola na cama e sente-se mal, ou porque apanha frio, seja lá pelo o que for, não vais conseguir dormir com uma gaja nua durante a noite toda ao teu lado. Por isso, por muito inteligente que sejas, por muito que faças, se queres estar com a gaja, tens que te sujeitar. Não há outra hipótese senão reagir em vez de agir...

- Custa-me muito a acreditar nisso…não sei... custa-me… não podes generalizar as coisas dessa forma…

-Sim, tu que até hoje, em toda a tua vida, estiveste única e exclusivamente com uma gaja, tens um conhecimento doido para falar sobre isso!
Não achas estranho, no entanto, eu ter conseguido, logo assim à primeira, fazer-te uma pergunta e saber logo que ela não curtia dormir toda nua?... ...
Olha! Está ali uma gaja sozinha naquela mesa. Chegas ao pé dela e perguntas se a podes conhecer. Depois, consoante o que ela te disser, dizes qualquer coisa que tu achas que a vai fazer rir. As gajas curtem rir… …

- Por muito que me esteja a custar, tens razão em relação à experiência e ao conhecimento que tenho sobre gajas. Apesar de achar que tenho algum, não posso contestar uma coisa que não sei ao certo… …

- Então, faz o que eu te estou a dizer, vai ali e diz aquela gaja que a queres conhecer…

- Eu vou lá…, vou-me lixar, mas vou lá…só para te provar que estás errado…

- Ui! Ele sente-se com coragem hoje! Mas diz o que te disse, não inventes estás a OUVIR?... …

- Olá…desculpa, mas eu estava ali a falar com o meu amigo e não pude deixar de reparar em ti… … Gostava de te perguntar se te posso conhe… … quer dizer, queria perguntar-te se tu sabes o que é que eu pensei no exacto momento em que olhei para ti?

-!!! Não, diz-me lá…

- Pensei em mulher!... Assim que te vi, pensei em mulher, em feminino, tu és, provavelmente, o verdadeiro paradigma da mulher, fiquei fascinado… …

- Bom, ainda bem que pensaste em mulher, até porque, e repara bem na surpresa que vais ter, e que poderá ainda fascinar-te mais… Eu sou uma mulher! Para tua informação, a mulher está aqui à espera do namorado. Por isso, se não te importas… …

- … …


-Eu nem vou fazer comentários man! A não ser que tu és um granda TOTÓ. Mas acho que tu já deves saber isso. De qualquer das formas, parabéns! Sempre te digo, as pessoas só aprendem às suas custas, e tu vais no bom caminho. Ao menos já vais ter com gajas e levas negas! Nada melhor para endurecer a carapaça de um gajo... ....

- Eu recuso-me, mesmo, a acreditar que tu é que estás certo. Vou-to provar. Vais ver... ...

Solidão pode ser contagiosa como a gripe diz estudo

E eu que pensava que solidão significava estar só!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Banda Sonora

Já não me recordo da última vez que adormeci noutra posição que não a de estar deitado de lado, com a face direita assente na almofada. Ontem, antes de adormecer, decidi dormir deitado para o outro lado. Assim que me virei, reparei que a cama é na realidade muito mais larga do que eu imagino quando adormeço virado para a porta do armário! Virado para o outro lado, vejo a janela e a parede branca! A luz que entra pelas frinchas das persianas, da janela agora de frente para mim, consegue desenhar por cima do lençol, o rectângulo perfeito de uma outra almofada! Há outra almofada do outro lado da cama! Há quanto tempo estará ali, intacta? Não quis perder tempo a pensar nisso, levantei a cabeça e encostei-a de imediato na outra almofada. Queria ver que forma a sombra tomaria depois! Estava fria, gelada, arrependi-me logo de ter encostado lá a cabeça! O que fará aquela almofada gelada ali? Quem é que a pôs ali? O lençol enrolou-se e começou a prender-me as pernas, estava cada vez mais e mais apertado! O arrepio de frio nas costas, provocado pelo gelo da outra almofada, não me passava, era cada vez mais longo…Esperneei até a roupa da cama ter caído toda no chão e levantei-me de rompante. Acendi a luz do quarto e dirigi-me à cozinha. Deu-me sede, precisava de beber um copo de água. Assim que abri a porta do quarto, vi que a luz do corredor estava acesa! Deixei a luz acesa?! Comecei a rever os meus passos todos, desde que tinha chegado a casa até à hora em que decidi deitar-me. Não me lembro de ter deixado nenhuma luz acesa! A luz do corredor?! Enquanto pensava, apercebi-me que permanecia à porta do quarto. Apaguei a luz e dirigi-me para a cozinha. Não foi preciso sequer entrar para poder ver. Assim que dei os cinco passos, medianamente largos, necessários para chegar à porta da cozinha, constatei que a luz também estava acesa! Fui à sala, ao outro quarto…Corri a casa toda! Todas as divisões, com excepção do quarto, estavam com a luz acesa! Terá faltado a luz?! Que disparate! Mesmo que a luz tenha faltado, alguém teria de ter ido a todos os interruptores! Corri para a sala, queria encontrar a chave do carro e sair. Já não me queria deitar. Onde é que eu deixei a chave? A chave não pode ter desaparecido! Sempre que perco alguma coisa, depois de procurar em todo o lado, apercebo-me que me esqueci de procurar no sítio mais óbvio! Baixei-me para procurar debaixo do sofá. Debaixo do sofá, o chão tinha desaparecido. Havia um buraco negro enorme! Em frente ao sofá, no meio do tapete da sala, estava um biscoito castanho para gatos. Era totalmente castanho, com uma risca ainda mais castanha a meio! Abri a janela e mandei-o fora. Fez um estrondo semelhante a um trovão quando caiu no chão! Contei até seis… Nada de mal aconteceu. Apaguei as luzes todas e tornei a deitar-me. Desta vez com a face direita na almofada...

James - Out to get you

domingo, 29 de novembro de 2009

Num substantivo, o concerto dos Muse hoje foi:

Beatriz

They will not control us we will be victorious

De tantas expressões e palavras, tais como gaita, sarilhos, ou até mesmo topas, esta ultima ainda usada por alguns argumentistas e tradutores, quando querem caracterizar uma personagem rebelde ou maléfica, tão usadas há uns anos atrás, e que hoje em dia estão tão infortunadamente a cair em desuso, a expressão que me está a dar mais pena deixar de ser usada, por ter sido substituída, sabe-se lá porquê, pela expressão aperto de mão, é a expressão passou bem! O que eu gostava quando era mais catraio que o meu Pai ou meu Avô me dissessem, quando encontravam um amigo ou um conhecido, "então não dás um passou bem ao senhor?" Durante anos, cheguei mesmo a pensar que um passou bem se tratava de uma só palavra e que o genuíno cumprimento ou saudação, o hoje em dia denominado aperto de mão, se chamava, efectivamente, passoubem!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Get behind the mule

- Absolutamente!

- Absolutamente? É isso que tens para dizer? O que raio é que queres dizer com isso?

- Então!...Quer dizer que concordo em absoluto contigo! Concordo com o que estás a dizer!...

- Concordas com tudo? Não tens absolutamente nada contra? Ou a favor? Não tens nada a acrescentar ao que te disse, mesmo concordando com tudo?

- Não. Concordo absolutamente com tudo o que disseste.

- Outra vez o absolutamente! Mas tu agora concordas absolutamente com tudo o que te digo?

- Não. Só concordo absolutamente com o que disseste há pouco. Com o que disseste agora não concordo.

- Mas tu não vês que não podes responder assim? Tu não vês que não te podes limitar a dizer que concordas ou que não concordas! Tu não fazes a mínima ideia do que é uma conversa pois não?

- Faço! Por acaso até faço. E tu, fazes ideia do que é uma conversa?

- Sim. Eu é obvio que faço! Se tu sabes também, devias então saber que para a existência de uma conversa, para que uma conversa possa ter continuidade, tens que fomentar a conversa. Tens que acrescentar algo ao que acabas de ouvir. Tens que responder, tens que concordar ou não concordar, e tens que fundamentar a posição que tomas. Quando queres dizer bem ou mal, ou dizer que concordas ou que não concordas, tens que acrescentar algo à conversa. A base de uma conversa é acrescentares algo a essa conversa, não te podes limitar a dizer que concordas absolutamente, ou que não concordas, e pronto! Como é que queres que eu possa continuar uma conversa com as tuas respostas?

- Ora essa! Mas por que é que uma conversa tem de ter várias perguntas e respostas? Para mim uma conversa, mas uma conversa a sério, é feita de pequenas, pequeninas, e médias conversas. Ao fim de algumas destas conversas, no mínimo 4, aí sim, teremos uma verdadeira conversa. Claro que se eu não concordar com o que me estão a dizer, terei de dizer alguma coisa para justificar isso, agora neste caso concreto eu concordo com tudo o que dizes. Nada tenho a acrescentar a isso, pronto, está feita uma pequena conversa, podemos de imediato passar para outra pequena, media, conversa. Obviamente que se eu tivesse apenas acenado com a cabeça, afirmativamente, aí não estaríamos na presença de uma pequena conversa, mas sim de um monólogo, dado que tu não terias obtido qualquer som da minha parte, mas se eu tivesse acenado negativamente com a cabeça, teriam de ser aplicadas as mesmas regras que são aplicadas quando se discorda verbalmente, ou com som, se preferires. Agora isso que me estás a dizer, é quase a mesma coisa que me dizeres que eu por deixar crescer a unha do meu dedo mindinho, só o faço com o único intuito de poder coçar a orelha com a unha! E isso, como deves facilmente calcular, é completamente ridículo, não é esse o único propósito quando se deixa crescer a unha do dedo mindinho.

- Isso é a comparação mais estúpida que já ouvi até hoje e não sei onde é que consegues aplicar essa comparação nesta conversa! O que raio é que queres dizer com isso?! E por que é que estás a deixar crescer a unha do dedo mindinho?

- Não sei porque é que é uma comparação estúpida! Tu estás a querer impingir-me a tua ideia de conversa, e eu, que tenho outra ideia sobre o que é uma conversa, expliquei-te exactamente isso, terminei essa explicação estabelecendo a comparação que tu denominaste como estúpida, mas que para mim, é uma comparação em que está subjacente a ideia que te acabei de transmitir. Estou a deixar crescer a unha para provar exactamente o que te disse, que nem toda a gente deixa crescer a unha com o intuito de coçar a orelha!

- Mais uma parvoíce! Isso não prova nada! Que outro motivo tens então para fazer isso? É obvio que qualquer pessoa vai pensar que é para coçar a orelha, por muito limpa e imaculada que consigas ter a unha, que, digo-te já, duvido muito que o consigas...

- Isso é que era bom! Está aqui à tua frente, podes ver que está perfeitamente limpa e imaculada! Alem disso, posso sempre dizer que é para tocar guitarra! Embora eu não saiba tocar, ninguém precisa de saber isso, basta que apresente outro motivo, que isso basta para desmistificar o mito de deixar crescer a unha unicamente com o objectivo de poder coçar o ouvido.

- Deixas crescer só a unha do mindinho para tocar guitarra? É só para os solos não? Por que é que é tão importante para ti desmistificar isso?... …Estás a ouvir? O que é que estás a fazer?

- Estou a fixar o olhar no empregado.

- Para quê?

- Então tu não sabes que se ficares o teu olhar em alguém, mais cedo ou mais tarde essa pessoa vai olhar para ti? Tu sem saberes sentes-te observado e instintivamente olhas para o sítio de onde vem o olhar.

- Tu e as tuas grandes teorias! E por que raio é que queres que o empregado olhe para ti?

- Quero pedir um chá! Por que é que fazes sempre as perguntas usando sempre a palavra raio?

- Nunca compreendi isso! Uma pessoa diz uma coisa, duas, três vezes, e fica logo rotulado como sendo para sempre, ou fazendo sempre a mesma coisa? Porquê?

- Eu pessoalmente não penso assim. Só que é um facto que tu hoje já disseste raio, e depois a pergunta, três vezes!

- Olha, está aí outra coisa que me faz confusão! “Eu pessoalmente”! O que raio é que isso quer dizer? Se és tu que pensas, não será pessoal?

- Vês? ... ...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Instant street

- Consegues irritar-me profundamente com essa tua “boa onda” constante! Não é possível! Pura e simplesmente não é possível que tudo esteja bem, sempre, para ti! E isso irrita-me. O que é que queres que eu te faça?...

- Pá, não é preciso fazeres nada. Por mim na boa...

Fell off the floor, man

Um gajo sabe que se transformou num adulto, quando compra pela primeira vez, sozinho e por necessidade, um par cuecas ou de meias...

Suds & Soda

- Já ouviste falar do Humberto Delgado?

- Não, mas já ouvi falar do João Grosso.

Acção de Graças: Obama salva dois perus de serem cozinhados

Ora aí está a justificação do Nobel.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Amy Winehouse quer casar de novo com Blake Fielder-Civil

Mas desta vez pela Igreja.

EUA não assinarão tratado que proíbe minas terrestres

Como de costume, lá estão mais uma vez os Americanos a minar tudo...

Free your mind

Ontem ele, armado em intelectual tenho quase a certeza, chegou ao pé de mim, ele sabe que eu aprecio muito o passatempo da leitura, e perguntou: Há quanto tempo é que leste Tóris?
Há quanto tempo é que li Tóris? Perguntei eu de volta, meio surpreendida com a pergunta. Mal eu tinha acabado de falar, começou a rir-se, o parvo. Também não me desmanchei, se ele pensa que pode mencionar um autor que por mero acaso não conheço, tenho a certeza que é apenas e só um mero acaso, porque eu leio muito, eu sei que leio muito e estou sempre a par de todas as novidades literárias, nacionais e internacionais, mais badaladas claro está, enganou-se redondamente. Ripostei de imediato que há muito tempo que tinha lido alguma coisa e que não tinha lido mais nada porque não me tinha cativado. O imbecil, que ainda por cima nem falar sabe, teve a audácia de me dizer para eu lhe dar uma outra oportunidade porque é um glande autor! Mas se ele continuava a pensar que me apanhava na curva, voltou a enganar-se, respondi-lhe logo com a pergunta: Ai é, por acaso já o viste para saber se ele é grande ou pequeno?
O ignorante, ai que raiva, só de me lembrar fico logo cheia de brotoejas, teve o desplante de dizer que o importante não é o tamanho mas sim a forma como se trabalha! E depois foi-se embora a rir! Parecia mesmo que estava a gozar comigo! Passou-me uma coisinha má pela cabeça, às vezes dão-me estes achaques, e gritei para toda a gente ouvir: INCULTO. TU NUNCA LESTE TÓRIS, EU É QUE LI TÓRIS. Fiquei mesmo satisfeita comigo mesmo por ter conseguido ter a coragem de demonstrar a toda gente que estava a olhar para mim, e a rir-se também, que quem vai à guerra dá e leva.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Jogos físicos e psicológicos

..."Ainda hoje consigo sentir o teu sabor na minha boca sempre que viajo sozinho de carro, ou de comboio, ou até de expresso! Se tiver de fazer uma viagem ligeiramente mais longa do que o usual, mais de trinta km já são suficientes para que comece a ser invadido por pensamentos de tal forma reais que chego efectivamente a sentir a tua pela na minha, os arrepios, o tesão que tal sensação me provoca! Desde que te vi pela primeira vez, a sorrir à minha frente, que me basta olhar para ti para que fique de imediato com uma erecção! É praticamente automático e não tenho qualquer controle sobre tal fenómeno! Quando dou por mim, sem ter ninguém ao lado para conversar, estou embrenhado em ti, nas tuas mãos frias e no teu toque quente, nas tuas pernas esguias e sempre bem cuidadas, na tua boca de lábios carnudos e língua afiada, nos teus seios e nos seus pequenos mamilos rosa carne, onde passo, ao de leve a minha língua, os meus dedos, e todo o teu corpo parece que arde, no teu enorme clítoris quando ficas excitada, no teu gemer quando sentes a minha língua a saborear o teu sal, na forma como abres as pernas e em mim ficas deitada, na lascívia profunda com que me dizes apetece-me portar-me mal e com volúpia te deixas invadir pelo desejo latente, que trazes sempre contigo, de prazer carnal!"...

- E isto é o quê?

- É um excerto de um bilhete que escrevi para a Clara! Ela teve a ideia de cada um de nós escrever um bilhete romântico que explicasse ao outro porque é que nós estamos juntos há 15 anos! Sabes como é que é a Clara não é? A ideia era termos trocado de bilhete hoje...E foi o que aconteceu.
O bilhete dela dizia só isto:

"Estou há 15 anos contigo porque todos os dias continuam a ser uma surpresa para mim! Beijos"

Eu ainda sem ter lido o que ela me tinha escrito, entreguei-lhe o meu! Sabia lá!...Eu resolvi escrever isto, sabes que eu viajo muito de um lado para o outro não é, então lembrei-me de escrever uma coisa tipo poema, o bilhete é enorme, eu mostrei-te só este bocado, mas fala sobre muita coisa mais...

- Não, está mau de todo! Embora não goste muito destas cenas erótico/ pornográficas, para um gajo bruto como tu não está mau não senhor! E ela, o que é que ela disse?

- Anda à procura de casa e acabou tudo comigo! Diz que, devido ao que escrevi, ao fim de 15 anos descobriu que eu só a vejo como um objecto sexual!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Complexos #19

Por que é que tinhas de ter entrado aqui sob a justificação de querer beber mais qualquer coisa, nem sabes sequer bem o quê? Tu até nem querias beber mais nada! Ela obviamente que também não, uma vez que tu é que tiveste de pedir este café para justificares o facto de ter querido entrar aqui dentro, e ainda por cima de te teres sentado logo! Por que é que és atrofiado e quiseste entrar aqui?...Agora aqui estás tu a beber o teu quarto café da noite! Tudo porque tiveste receio de beber álcool demais e ficar demasiado expansivo! Tu e as tuas merdas parvas do costume! O que é que acabaste por conseguir com isso para além de só estares a perder tempo? Não sabes? Então eu digo-te. UM ATAQUE DE ANSIEDADE DO CARAÇAS! Que até sinto o coração a latejar nas têmporas e tudo! E porquê? Porque ela te disse, espontaneamente e até com uma certa graça, que de hoje não passava. Que é hoje que quer e vai conhecer a tua casa, pondo-se depois disso, tranquilamente e de mão dada contigo, ao caminho. Claro que tu, na tua imensa sapiência no campo da patetice, decidiste protelar sabes lá tu o quê, e, convencido que tu é que a estavas a convencer que ela é que queria ter parado aqui, só conseguiste, até agora, para além de ela dever estar a começar a pensar que tu és um totó do caraças, que ela se começasse a sentir ligeiramente desconfortável por nunca mais irmos para casa! Foi perfeitamente notório que ela quase que se sentiu na obrigação de manter uma conversa qualquer para evitar que tu estejas aqui calado feito parvo! O pior de tudo foi que ela decidiu manter uma conversa através de uma suposta piada, revelando-te a visão atroz, que ela consegue ter da cadeira dela, daquela peida cheia de pelos que aquele gajo tem! Para culminar, a seguir, desfeita em risos, contou-te o horror que tem de nádegas assim! Agora, explica-me lá, ó espertinho, como é que te vais conseguir despir diante dela sem que ela olhe para o teu rabo sem pensar de imediato na peida daquele gajo? Isto já para não mencionar a tua tentativa completamente idiota de dizeres, subliminarmente e enquanto ela se ria a bandeiras despregadas da peida do gajo, que tens uma peida em tudo similar! O que é que esperas que ela pense de ti ao dizeres com um sorriso amarelo e estúpido na cara barbaridades do género: "A namorada com a boina preta sentada ao lado dele de certeza que não deve pensar da mesma forma", ou então a pérola das pérolas de toda a tua profunda estupidez: "As coisas mais sexy são muitas vezes aquelas que consideramos repugnantes à primeira vista!".... Parabéns pá! Os meus sinceros Parabéns! Desta vez conseguiste mesmo bater no fundo...Bom, felizmente que por vezes ainda existe intervenção divina e ela teve vontade de ir à casa de banho na altura certa de interromper a tua diarreia mental...Ou então ela apercebeu-se foi exactamente disso e foi lá dentro pensar o que é que ela anda a fazer da vida dela aqui com um gajo como tu! Se tu fosses um gajo minimamente inteligente bazavas era daqui já e com um bocado de sorte nunca mais a vias e não tinhas de passar por mais vergonhas. Daqui a uns anos, eventualmente, acabas por esquecer mais este episodio...Só que se bazares sem ter bebido o café todo, ela ainda pode pensar que também foste ao W.C. e tal, fica aqui sentada à espera, começa a achar estranho o tempo que estás a demorar, depois pergunta por ti aos empregados, descreve-te, eles reconhecem a descrição e vão logo saber que ela está a referir-se a ti, de certezinha absoluta, com o azar que tens sempre ela vai perguntar por ti aquele empregado ali que eu tenho a certeza que te odeia de morte, as pessoas quando nos odeiam fixam-nos melhor, e ele vai logo dizer-lhe que moras já ali e a coisa ainda se pode tornar mais deprimente! Bem, ao menos acaba o café... Mal por mal é melhor não agravar a coisa. Deixa-a chegar pode ser que te ocorra alguma saída airosa que ainda possa salvar a noite... ...

- Voltei. Então? Em que pensas tu com essa cara tão seria?

- EU?! Em nada de especial...Olha, estava ainda a pensar na peida daquele gajo...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Banda Sonora

Subitamente, sinto-me como se estivesse a ver-me cair, em queda livre, a toda a velocidade rumo ao chão, e não consigo importar-me sequer com isso. Pelo contrário, à medida que me aproximo violentamente do chão, tenho esta sensação de leveza que cresce exponencialmente. É quase como se conseguisse ver-me cair, ao mesmo tempo que flutuo, apreciando todos os milésimos de segundo que lentamente passam, mesmo que de vez em quando decida olhar para baixo e veja que a queda continua vertiginosa. Claro que à medida que me aproximo do chão, por ventura para aumentar a ilusão, vou-me desfazendo de tudo aquilo que puder para que o peso que trago comigo possa aligeirar a queda. Curiosamente, e ao contrário do que inicialmente pensava, é cada vez menos difícil separar-me de tudo o que pensava não ser capaz de me separar! E não porque seja uma questão de sobrevivência, porque a queda é de facto inevitável e irreversível, mas porque pensava, atribuí, quase sem me dar conta disso, um significado e uma importância às coisas que, ao ver-me cair, se percebe perfeitamente que na realidade não têm.

Tindersticks - Travelling light

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Banda Sonora

À porta do edifício, enquanto esfrega o chão, a empregada de limpeza, sempre com aquela bata verde alface e letras amarelas vestida, cantarola alegremente ao mesmo tempo que pessoas passam quase sem se aperceberem que ela ali está. Através do chão húmido e repleto de pegadas, as pessoas absortas que entram no edifício, edificadas pelos seus sapatos de pele e sola maciça, balbuciam qualquer coisa ao segurança sentado na portaria, que num repente, como se tivesse sido estimulado com choques electricos, responde a todos “bom dia” de forma monocórdica e automática. O pi pi que provém do aparelho de ponto acabado de ser picado, mistura-se com o burburinho que se faz sentir perto dos ascensores, impossibilitando saber em concreto se as pessoas estão de facto a comunicar umas com as outras com palavras ou se apenas por onomatopeias. Dentro dos ascensores, durante a curta subida que os mesmos proporcionam, com o intuito de se conseguir chegar aos andares onde supostamente a produção efectuada durante o dia é a que irá proporcionar o consumo responsável pela alienação, o burburinho transforma-se numa mistura de perfumes com águas de colonia matinais, e em silêncio, interrompido de quando em vez pelo roçar inadvertido de uma perna enrolada numa fazenda num qualquer glúteo coberto por um outro tecido igualmente áspero. Os olhares, agora perdidos, ora no tecto, ora nas paredes falsas cobertas por espelhos, ora no chão, focam-se somente quando a porta abre e finalmente enfrentam as paredes brancas que os circundará durante o resto do dia, durante o resto da vida, até ser noite novamente.

Morgue – Mão Morta

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Filhos da puta sem razão e sem sentido

O Manuel Garcia era um gajo porreiro. Era mesmo aquele tipo de gajo com quem se pode falar quando estamos stressados no trabalho. Tranquilo, e quase sempre do lado da razão, por muito irritado que um gajo estivesse, quando se falava com ele as coisas pareciam sempre mais simples. Ocupava um daqueles cargos intermédios, daqueles cargos que um gajo se esfola à brava para conseguir o lugar, porque teoricamente se recebe melhor e se tem menos chatices, mas que no fim é apenas um cargo em que se trabalha mais e nunca se é levado a serio. Eu até, quando as coisas não eram comigo, ficava admirado como é que o Manel aturava certas coisas, sempre, sempre com aquela calma! Às vezes estavam mesmo a lixar o gajo, ele sabia, quase de certeza, que o estavam a lixar, mas ficava sempre tranquilo. Uma vez ou outra ainda tentava demonstrar o seu ponto de vista, tentava explicar que se calhar, de outra forma, as coisas ficariam melhor resolvidas. Mas quem é que ouvia o Manel? No fundo, o Manel era o gajo que estava ali para manter as coisas calmas, apesar de ele pensar que tinha outras funções, toda a gente no escritório, chefes e empregados normais, sabiam que o Manel só se mantinha ali porque era passivo com as chefias e era um gajo porreiro para os colegas. Quem é que diria que o Manel era capaz de fazer uma coisa daquelas!
Claro que no princípio ninguém desconfiava de ninguém. As coisas ocorriam de uma forma espaçada no tempo, e apesar do mau estar que causava sempre que acontecia, ninguém parecia ligar muito a isso. Certo dia, um daqueles chefes picuinhas, que se rala com tudo o que não é necessário ninguém se ralar, (Eng. Mendes é essa a sua graça. Nunca soube o primeiro nome do gajo! Acho até que ele deve ter mudado o primeiro nome dele para Eng. Só a questão que ele faz em frisar esse aspecto...) algures em meados de Maio, o Eng. Mendes dirigiu-se à casa de banho e sai passados alguns segundos, indo directamente para o seu gabinete e chama a sua secretária, a D. Alzira.
A D. Alzira, já trabalhava lá há quase há 23 anos, não suportava fazer recados nem coisas do género, tinha tirado o curso de secretariado e achava que o seu lugar era junto da administração. Passava a vida a dizer que não tinha culpa nenhuma de ser gorda e que era muito mais competente do que todas as secretárias juntas da administração.
Quando a D. Alzira chegou ao gabinete do Eng. Mendes, ele disse com aquele ar que ele sempre fazia quando tinha descoberto mais uma falha nos seus subordinados, que era necessário colocar um letreiro na casa de banho a dizer que as pessoas devem ter o cuidado de deixar a casa de banho limpa sempre que acabam de a utilizar. Disse-lhe também para ela entretanto chamar a empregada de piquete porque a casa de banho estava imunda e tinha que ser limpa.
O Eng. Mendes não era pessoa para deixar assim um assunto destes sem qualquer tipo de resolução ou medida. Apesar de ter dito à D. Alzira para colocar o letreiro na casa de banho, ia agora passar a deixar a porta do gabinete aberta e vigiar a casa de banho durante o dia. A D. Alzira, claro, não disse nada ao Eng. Mendes, mas assim que saiu, começou logo a bramar que aquilo não era o trabalho dela, que ela não tinha nada que fazer letreiros nem chamar as empregadas de limpeza. Teve mais um ataque de nervos, que deixa sempre toda a gente nervosa no escritório, e saiu a correr para a casa de banho. Saiu da casa de banho aos berros e ainda mais histérica do que tinha entrado.
Com este alvoroço todo, o graxas, correu logo para o gabinete do Eng. Mendes para perguntar o que se passava. O Eng. Mendes que já estava a ficar bastante mal disposto com aquela coisa toda, principalmente porque agora estava quase todo o piso a perguntar o que é que se passava e ninguém estava a trabalhar, disse logo ao Helder muito bruscamente para ele chamar a empregada de limpeza a fim da casa de banho ser limpa e que não se passava mais nada, que voltassem todos ao seu trabalho.
Na hora de almoço desse dia, lembro-me de ver o Manel a tentar acalmar a D. Alzira, que ainda soluçava. Foi aí que me apercebi do que se tinha passado. Alguém tinha deixado uma bosta em cimo do tampo da sanita. Eu já tinha, esporadicamente, ido à casa de banho e encontrado a mesma imprópria para consumo. Já tinha até comentado com o Manel e com outros gajos lá do escritório, se eles sabiam quem é que de vez em quando deixava a casa de banho assim, mas nunca tinha sucedido nada do género e agora estava toda a gente parva com aquilo.
Os dias foram passando, estávamos agora em Novembro, e nunca mais nada se tinha passado. Até o Eng. Mendes estava já convencido que a sua ideia do letreiro tinha mostrado quem de facto mandava ali. Tinha inclusivamente a porta do gabinete constantemente fechada novamente, quando a D. Alzira, numa terça-feira, vai à casa de banho a meio da manhã e se depara com a casa de banho no seguinte estado:
Um cheiro a merda insuportável e na parede por detrás da sanita uma frase escrita a bosta: "Se eu aturo as vossas merdas, aturem agora a minha".
Tinha sido escrita com o piaçava, que estava agora dentro do lavatório depois de ter cumprido pela primeira vez uma função para a qual não estava destinado.
Histerismo completo, todos os empregados normais correram para a casa de banho, inclusive o Eng. Mendes, e toda a gente saiu dali com a mesma pressa que tinha chegado.
Ninguém mais trabalhou nessa manhã! Fomos todos para a cantina enquanto a coitada da empregada que estava de piquete limpava a casa de banho. O Eng. Mendes reuniu de emergência com os seus superiores e a D. Alzira teve que por um comprimido debaixo da língua e ir para casa o resto do dia.
Da reunião com os seus superiores, soube depois por portas e travessas que ele tentou implementar uma medida que aos anos ele andava a tentar implementar. Mas sem sucesso. Não foi vista com bons olhos a ideia das pessoas irem à casa de banho uma vez por manhã e uma vez por tarde, apenas com 5 minutos de tempo. O Eng. Mendes decidiu a partir desse dia vigiar constantemente a casa de banho.
Passou a apontar num documento, elaborado pela D. Alzira, que se tinha esmerado a serio, as horas, quem entrava e quem saia da casa de banho. Sempre que saia alguém da casa de banho, ou a D. Alzira, ou o Eng. Mendes, que andavam agora em completa sintonia, tratavam muito discretamente de ir logo de seguida ver em que estado tinha ficado a casa de banho. Na terça-feira da semana a seguir, outra vez de manhã, exactamente uma semana depois, novamente a mesma cena. Desta vez, a frase dizia "AH AH AH não me apanham". Lá estava o piaçava no lavatório outra vez, imóvel!
O Eng. Mendes correu para o documento, verificou que ninguém tinha ido à casa de banho naquela manhã, e gritou para todo o piso ouvir que ia apanhar quem andava a fazer aquilo. Aquilo já tinha ultrapassado todos os limites e esse alguém ia ser apanhado e castigado.
Lá foi o Helder a correr novamente para o gabinete do Eng. Mendes. Estiveram algum tempo à conversa e o Helder saiu do gabinete com aquele sorriso parvo, que só ele tem, convencido que tinha subido mais uns pontos devido a uma ideia qualquer que tinha tido. Não faço ideia o que é que o Helder disse ao Eng. Mendes, só sei que naquele dia ninguém falou mais daquilo!
Nesse dia, como de costume, toda a gente saiu às seis da tarde e ficaram apenas no escritório o Eng. Mendes, o Manel, o Helder e eu.
O Eng. Mendes, desde o sucedido, ficava sempre até sair toda a gente. O Helder ou o fuinha, como quiserem, ficava para poder mostrar ao Eng. Mendes que era dedicado ao trabalho. O Manel porque tinha mesmo de trabalhar, se não, não iria ter tempo de terminar o trabalho para entregar no dia a seguir. Eu, só estava lá para ver se conseguia perceber o que é que o Fuinha tinha dito ao Eng. Mendes de manhã. Eram quase oito da noite e ninguém parecia querer ceder, o único que estava verdadeiramente ocupado continuava a ser o Manel. O Helder, fartou-se, foi-se embora. O Eng. Mendes também começava a dar mostras de querer ir embora. Eu já estava convencido que não ia saber o que é que o Helder tinha falado com o Eng. Mendes, fui á casa de banho. Quando sai da casa de banho e me dirigi para a minha secretária, vi que já tinha saído o Eng. Mendes. Só lá estava o Manel ainda a trabalhar. Perguntei-lhe se ele ainda ficava muito tempo. Ele disse-me que não. Disse que ia para casa e que no dia a seguir vinha um bocado mais cedo para acabar o trabalho. Saímos juntos do edifício. Enquanto esperávamos pelo elevador, trocamos umas palavras e nem reparamos que quando o elevador abriu as portas, estava lá o Eng. Mendes. Ele saiu sem nos dizer nada e nós entramos no elevador e descemos.
Lá em baixo despedi-me do Manel. Fingi que procurava alguma coisa nos bolsos das calças, enquanto ele se afastava, e quando ele já não me podia ver, fui a correr novamente para o escritório ver o que é que o Eng. Mendes estava lá em cima a fazer. Quando cheguei lá acima já não vi ninguém! O Eng. Mendes já devia ter ido embora de vez. Fui novamente à casa de banho e vim-me embora, feliz e contente.
No dia a seguir de manhã, o Manel, tal como tinha dito, chegou mais cedo do que todos.
Fez o seu trabalho e nem deu pelo tempo a passar. Eram praticamente nove da manhã, não tardava muito iriam começar a chegar as pessoas. Resolveu ir à casa de banho antes que alguém chegasse. Assim que entrou na casa de banho e fechou a porta, viu logo o piaçava dentro do lavatório. Enquanto os seus olhos se dirigiam para a parede da casa de banho, onde estava uma nova frase, começava a inalar o cheiro nauseabundo que empestava toda a casa de banho. Nos 2 ou 3 segundos que demorou nisto tudo, abre a porta para sair dali de imediato e ainda com a porta, apenas com uma greta aberta, vê que acaba de chegar o Eng. Mendes. Fecha de imediato a porta e põe-se a pensar no que há-de dizer ao Eng. Mendes. Enquanto pensa, lê e relê umas trinta vezes o letreiro na parede. O seu cérebro recorda-lhe que existe um cheiro insuportável na casa de banho e gasta praticamente toda a embalagem de spray ambientador que existe sempre disponivel debaixo do lavatorio. De seguida, sem sequer pensar novamente nas coisas que lhe estavam a suceder, agarra no piaçava, abre a torneira do lavatório ao máximo, lava o piaçava e limpa da forma possível a casa de banho. Por sorte, (dependendo sempre do ponto de vista), tinha ficado um balde e uma esfregona na casa de banho. O Manel consegue limpar tudo em cerca de vinte minutos. Sai da casa de banho e repara que o Eng. Mendes está a anotar a sua saída da casa de banho. Antes que o Eng. Mendes pudesse ir verificar a casa de banho, dirige-se ao Eng. Mendes e sem deixar que ele pudesse dizer alguma coisa, diz-lhe que aquele ia ser o seu ultimo dia na empresa.
O Manel trabalhou o resto do dia, sem dizer uma palavra e saiu às 6 em ponto.
Desde que o Manel foi embora, nunca mais houve nada na casa de banho. O fuinha foi obviamente para o lugar do Manel, o Eng. Mendes e a D. Alzira, apesar do espanto, estão convencidos que era o Manel quem tinha cometido aqueles actos, apesar de não poderem provar nada, chegaram à conclusão que desde a saída dele, nunca mais tinha havido nada. Eu olha, cá vou andando. Como diz a D. Alzira, quem diria que o Manel era capaz de fazer uma coisa daquelas!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Postais de Cucujães

Então, já saiu do quarto? Ainda não! Ainda está lá em cima! Tem sido assim desde a sexta-feira 13! Já não sei mais o que é que hei de fazer! Pois…nem eu! Mas que anda com um comportamento estranho outra vez anda! Ninguém me tira da cabeça que foi por causa da maldita sexta-feira! Eu bem lhe disse para não sair de casa, lembras-te? Não sei porquê, chama-lhe sexto sentido se quiseres, pressentimento, não sei, mas que eu senti que alguma lhe estava para acontecer naquele dia, senti. E agora, o que é que fazemos? Não podemos deixar ficar as coisas assim. Anda, diz-me o que é que fazemos? Foi para isto que casámos e quisemos ter filhos, foi para que quando estas alturas finalmente chegassem nós conseguissemos, juntos, resolver tudo e mais alguma coisa! Diz-me o que é que fazemos agora? Oh, mon amour, je ne sais pás! Vraiment!...Por favor! Não me comeces agora a falar francês…Mais porquoi? Mon amour…Sabes que o francês é, por excelência, a língua do amor! Se invocas neste momento o nosso amor, para resolver o problema que temos agora entre mãos, queres melhor altura para falar em francês e recorrermos efectivamente a ele para que consigamos vislumbrar uma saída? Sabes perfeitamente que a língua do amor é o italiano, ou até mesmo o espanhol! Queres coisa mais bonita do que um te quiero sussurrado ao ouvido? Bom, olha que o russo, com a pronuncia correcta, repara Я тебя люблю…Bem, se queres entrar por aí, a lingua arabe...
Entretanto, enquanto decorria este pequeno dialogo, lá em cima, depois de ter passado grande parte da noite sem dormir, tal era a ansiedade com que se deparava a sua mente, abria os olhos, pela primeira vez na manhã e com um sorriso rasgado na cara! É HOJE! É HOJE O DIA! Com a convicção absoluta de que tudo tinha corrido de acordo com todos os sinais que há anos esperava, desde a ultima sexta-feira 13, precisamente o dia em que tinha decidido que se alguma coisa fosse tivesse de acontecer, como forma de sinal, para que pudesse entender e começar então a mudar o rumo da sua vida, essa coisa teria de acontecer na sexta-feira dia 13, o seu dia preferido desde a primeira sexta-feira 13 que viveu, quando um raio quase lhe caiu em cima! Já nada podia demover a ideia de que tudo batia certo, nada podia parar e impedir a sequência de movimentos iniciada! Esta era, sem duvida absolutamente nenhuma, a imparável sequência de movimentos! Como podia não ser?! Primeiro conheceram-se sexta-feira dia 13! De seguida, no dia seguinte, o primeiro teste supremo, conseguir fazer mais de 250.000 pontos no tetris! 423.554 Record absoluto. Jamais alcançado naquele aparelho! Previamente por si determinado, e com a motivação em alta, foi um pulinho até decidir saltar para a ultima etapa e esperar que os três, extremamente importantes, sinais aleatórios que teria obrigatoriamente de receber, finalmente chegassem! Condição para que isso acontecesse? Teria de ser nos 3 dias consequentes ao dia 14! No dia 15, o seu coração pulou de alegria, quando a meio da tarde passou finalmente por cima da poça, na calçada que avista da janela do quarto, o carro preto sem um tampão no pneu da frente do lado esquerdo do carro! Só faltavam dois! Dois sinais e a sorte estaria definitivamente lançada! No dia 16, eram 23:39 e a desolação tinha ocupado todo o espaço. Foi preciso um sinal extra, para que se conseguisse levantar da cama aquela hora! Às 23:41, depois de ter caído, sem razão aparente, da prateleira ao lado da janela, a caneca que tinha trazido de Barcelona, tendo ficado em migalhas em cima dos tacos e em cima do tapete, sentiu-se na obrigação de se levantar e limpar os estragos que o acaso tinha feito. Sem sequer ter notado ainda que era a caneca de estimação, olhou para a janela antes de se baixar para apanhar os cacos e o seu coração voltou a estremecer! Ali estava, ali estava o segundo sinal! Quem diria que apenas voltaria a recordar-se da caneca no dia 18! Tal como no filme, um saco transparente voava na linha do horizonte paralela à sua visão da janela! Flutuava, como se tivesse vida própria! Depois acenou um adeus com a asa direita, e seguiu o caminho das estrelas. Ainda hoje tem a certeza que ouviu o saco rir…
Com 2 dias passados no quarto, o terceiro dia era o dia em que o ultimo o sinal, o mais difícil de obter, por todas as razões e mais alguma, teria de ocorrer! Depois de quase arruinadas as hipóteses de tal acontecer, dado que era condição primordial acordar de manhã, tendo estado quase noite toda a tentar dormir a todo o custo para que pudesse acordar de manhã, quando acordou, o Sol brilhava e os melros cantavam! Era finalmente manhã e tinha dormido o suficiente pare que a premissa permanecesse impoluta! Com um sorriso estampado na cara, desde o segundo em que acordou, bastava agora descer as escadas e encontrar os seus Pais a falar, apenas e somente, Português, para que o terceiro sinal fosse cumprido e finalmente pudesse declarar todo o seu amor, sabendo, com certeza, que isso era a coisa certa a fazer…